É PENTA! Festa PUNGA chega a sua quinta edição – e foi foda!

Domingo, 28 de Maio rolou a quinta edição da FESTA PUNGA – sendo também a quinta edição que o Rap Em Movimento chega fazendo barulho.
Já era a segunda vez em menos de 24 horas que eu estava na Casa da Luz (sábado rolou a festa Detonna, que recomendo pra quem curte um RAP, com show do HFF, grupo do meu mano Card). Dessa vez, o enredo era outro: Festa underground, com grupos que estão emergindo na cena, a proposta que a festa prega desde sua primeira edição. Mas tínhamos uma surpresa: DJ KL JAY (leia com a voz do Edi Rock na introdução do “Rotação 33”), dando aula de RAP, humildade, estilo e amor ao movimento. Aos 47 anos, como ele mesmo disse, depois de receber uma chuva de aplausos, tocando para a juventude, cada dia mais em forma, indo do Funky, passando pelos anos 70, boombap Golden era, chegando no TRAP (e vocês aí brigando por TRAP x “RAP de verdade”).
Quem abriu foi, com louvor, meu time Carranca Records. Não pude, dessa vez, dar o ar do meu talento como MC (pausa para rir), mas na próxima tô lá com meus irmãos bagunçando mais do que devo. Salve NGMA!
Tivemos apresentações também do mano L-B.M.C.K.M, Helibrown, Fleezus (Recayd Mob), Alt Niss e os meninos prodígio do Mob79. DJ Minizu tava na casa, comemorando aniversário (Salve,  O DJ!), meu irmão Beans tava na casa também. Infelizmente não pude ver o set dos moleques, que sempre vem tijolada, mas o importante disso tudo foi ver o movimento acontecer mais uma vez, com união, espaço e muito talento de todos os envolvidos.
Agradecimento especial aos irmãos do Zebra Filmes que fortaleceram no flash, e tavam lá fazendo um lindo trabalho de registro da festa.
Pra saber mais como foi o rolê, viajem nas fotos em nossa página no Facebook, e aqui embaixo, onde fizemos uma seleção do melhor que aconteceu.
Paz!
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Rapaz Comum

Texto inspirado na música Rapaz Comum do grupo Racionais Mc’s, em comemoração aos 20 anos do aclamado disco “Sobrevivendo no Inferno“.

Edivaldo morava em um dos extremos da cidade de São Paulo, tinha 22 anos, torcedor fanático do Santos, morava com sua namorada e a filha de 3 anos na casa da sogra, era estoquista de um hipermercado 24h.

Pegava trem todo dia antes de amanhecer para chegar no trabalho às 6h, gostava de ficar ouvindo música no caminho enquanto lia as notícias de futebol no celular. E naquela manhã ele estava ansioso demais: quinto dia útil e final de Copa do Brasil, o Santos ia jogar. Naquele mês de outubro ia cair um bônus das horas extras que ele fez em setembro, uns reais a mais no salário, esmola de patrão, cuzão milionário, mas aquilo não importava, Edivaldo achou melhor pensar que naquele dia poderia se dar ao luxo de tomar umas brejas vendo o alvinegro praiano. Enquanto escutava Me Faça Forte, leu que seu time não tinha nenhum desfalque para a decisão.

Chegou cedo no trabalho como sempre e fez tudo que lhe foi pedido sem reclamar, lembrou que tinha que levar leite e umas balas que prometeu para a filha, fez um vale. Comeu dois mistos quente e tomou café com leite na padaria do lado do trabalho na hora do seu intervalo, leu mais umas duas ou três notícias de futebol, deu risada de memes, mandou mensagem para a namorada avisando que ia levar o dinheiro de duas contas que tinham que ser pagas.

Aquele dia ele saiu do trabalho com muita pressa para aproveitar a tarde: puxar um ronco, ficar descansado, mas antes comprar umas quatro latinhas de cerveja para tomar vendo seu time jogar. Um farol antes de chegar na estação, Edivaldo saiu correndo para conseguir passar no sinal verde e foi parado por dois policiais na calçada seguinte, nisso ele perdeu mais ou menos seis minutos e dois trens. Foi liberado ouvindo que foi confundido com um suspeito de furto em um hipermercado próximo, não recebeu­­­ um pedido de desculpas no término do enquadro. Quando passa na catraca da estação, o segurança da CPTM comenta:

– Que merda hein…

– Os cara é racista, né? Fazer o quê?

– Racismo não existe, comigo não tem disso. É pra sua segurança.

– (silêncio)

Já no trem voltando para casa, Edivaldo presta atenção na molecada vendendo balas Fini, percebe que dentro do vagão tem um amigo de infância, o Telhada, que era mais velho e com quem perdeu contado depois que ele foi estudar na Barro Branco. Esse cara estava bem tenso, sentado de braços cruzados e olhando fixamente para as crianças que vendiam as guloseimas. Um dos meninos foi entregar o troco de uma venda a uma senhora, e de repente Telhada levanta gritando e já segurando o menino que nem um metro e meio tinha pela gola da camiseta suja e gasta.

 

Todo mundo abismado logo de cara dentro do vagão pediu para que o metido a Charles Bronson soltasse o moleque, Edivaldo levantou e peitou Telhada, pediu por favor, mas com raiva para que o (ex)amigo soltasse a criança. O guardinha usou argumento de vidente, afirmou que o ambulante ia roubar o celular da senhora, mas viu que as pessoas em volta não te davam razão, decidiu soltar o menor, mas deixou claro, que o ditado dos cem anos de perdão não funciona para ladrão que defende ladrão, mesmo sem ter nenhum em vista naquele momento, mas aquilo fez Edivaldo lembrar do seu passado.

 

Quando era menor de idade, o protagonista dessa história queria ter respeito entre seus colegas que não se respeitavam, gostava de aparentar que sabia tudo sobre bandidagem, que podia fazer e acontecer como um inimigo público tupiniquim, de tanto querer ser, acabou parecendo e esses colegas resolveram chamá-lo para um assalto de computadores novos da escola que estudava. Ele sequer podia sair de casa depois das 22h, mas aceitou o convite e disse para sua mãe que ia fazer trabalho na casa de um amigo, sem noção de consequência alguma, Edivaldo foi ficar de vigia na porta do colégio enquanto os ladrões reais faziam seu trabalho.

 

A única coisa que ele devia fazer era jogar uma pedra na janela da sala onde tinha as máquinas caso visse de longe uma viatura. Mas foi pego de surpresa, em um domingo, 0h45 na rua deserta em frente a sua escola, a polícia o enquadrou, perguntou o que ele estava fazendo aquele horário parado naquele lugar, gaguejando e tremendo em uma noite quente, ele disse que só estava ali parado mesmo.

 

Os policiais resolveram dar uma olhada dentro do colégio, pegaram todos que estavam lá dentro em flagrante e levaram para a delegacia. Edivaldo era o único de menor de idade, foi mandado para Fundação Casa, passou nove meses por lá, tendo como recompensa a decepção da sua mãe, o afastamento dos amigos de verdade, e a dúvida cruel se aqueles que foram presos estavam com raiva dele ou não.

Com a gaveta do passado fechada, Edivaldo chega em casa já entregando o dinheiro para a esposa, que te recebe com um sorriso, não tão grande como o de Manuela, sua filha que só queria saber das balas prometidas. Ele almoça e depois vai para o mercado comprar suas latas de Itaipava, no caminho encontra um amigo – também santista – que lhe convida para assistir o jogo na sua casa, onde ia ter cervejas e quitutes, o convite é aceito e ele em vez de subir de volta com cerveja pra casa, subiu com Yakult para a filha, nisso a sua esposa já te via como herói, e ele nem tava sabendo.

A soneca prometida pra si mesmo mais cedo foi tirada, já era noite e faltava apenas meia hora para começar o jogo tão esperado, aquela altura ele tinha certeza de que ia soltar o grito de campeão, o dia tinha sido estranho, mas tudo deu certo, até porque sua família estava bem, só faltava bola no fundo da rede a favor do seu time.

Edivaldo chega na casa do amigo 10 minutos antes de começar a partida, conversa e risada, cerveja e carne assada, tava sendo um bom fechamento para o dia. O jogo começa e o frio na barriga vem junto.

A campainha toca, ele próprio decide ir atender, sente um calafrio mas não dá atenção, quando ele abre e porta só vê um homem encapuzado na sua frente, que saca um treizoitão e lhe acerta tiros que ele nem raciocina ao ponto de conseguir contar. Ele cai no chão tentando entender o que aconteceu, tenta lembrar quem poderia fazer aquilo, será que tava sendo cobrado pelo roubo mal sucedido de anos atrás? Será que foi o guardinha que encontrou mais cedo no trem e te chamou de ladrão? Será que foi baleado por engano… No lugar onde morava aquilo era comum, podia ser qualquer coisa.

Nada importava, Edivaldo deu espaço para outros pensamentos, será que o Santos ia ser campeão? Será que a sua filha ia sentir falta dele? Ela ficou tão feliz quando ganhou as balas que tanto gostava… 

Escute a música Rapaz Comum.

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20 anos de “Sobrevivendo no Inferno”

” 60 por cento dos jovens de periferia sem antecedentes criminais á sofreram violência policial. A cada quatro pessoas mortas pela policia, três são negras.
Nas universidades brasileiras apenas 2 por cento dos alunos são negros.  A cada quatro horas, um jovem negro morre violentamente em São Paulo
Aqui quem fala é Primo Preto, mais um sobrevivente”

 

No final de 1997, era lançado o que, pra mim, é o maior álbum da história do RAP Nacional – e que talvez nada o supere em questão de importância ou qualidade, numa época em que ninguém dava atenção ao som que vinha das favelas do Brasil.

 

“Sobrevivendo no Inferno” foi o quinto álbum de estúdio lançado pelos Racionais MC’s. Antes disso, o grupo já tinha uma reputação de 10 anos na cena underground, onde o RAP, em quase sua totalidade, existia. O disco foi o maior divisor de águas dentro da cena e o primeiro a romper as barreiras do “subterrâneo”, e a atingir um conhecimento dentro da cena mainstream da música, chegando até a MTV e outros canais, passando da marca de 1,5 milhões de cópias vendidas na época do lançamento. Tudo isso de forma totalmente independente.
Mas, antes de falar sobre o disco de forma técnica, ou fazer uma resenha sob a ótica musical, acho importante dizer o quanto esse disco é importante pra mim, de forma sentimental, ou com relação a minha vida e iniciação ao RAP:

“O ano era 98, 7 anos de idade, meu pai trabalhava em um shopping na Avenida Paulista. Ele tinha um amigo, que tinha um Chevette (eu amo Chevette demais, espero que a fotografia de RAP me de granas pra comprar um, hahahaha), e sempre tocava nesse carro uma fita k7, com uma batida forte e umas letras que, na época, me apavoravam. Sempre que eu ia dar um rolê com meu coroa depois do trabalho, eu estava nesse carro, ouvindo essa mesma fita. Até que, um dia, perguntei ao amigo dele do que se tratava, e ele me mostrou uma capa preta, com uma cruz no meio e letras que eu – ainda, não entendia.

 

Capa criada pelo artista Marcos Marques.

 

Chegando em casa, um dia, disse que queria demais essa fita. Enchi o saco dos meus pais, até que eles me deram uma grana – algo em torno de 5 reais, para comprar a fita. Só que havia um porém: Meu primo também amava essa fita, e a única banca do bairro que vendia, tinha apenas uma fita. Decidimos, eu e meu primo, apostarmos corrida até a banca, para decidir quem ficaria com ela. Eu venci, e comprei a fita.

 

Nunca soube por onde ela se perdeu nesses 20 anos depois do episódio. Mas tenho uma lembrança maravilhosa dessa época, do que vivia, do mundo como era, do prazer que existia em ouvir RAP num toca-fitas e coisas do tipo. Deixo aqui registrado meu agradecimento ao meu pai e ao amigo dele, por me introduzirem, sem saber, ao mundo do RAP.”

 

Passada minha história ~lindinha~, gostaria de fazer algumas observações sobre o disco e desenrolar a resenha falando um pouco mais do trabalho.

 

“Sobrevivendo no Inferno” é o álbum mais aclamado dos Racionais por diversos motivos. Além de ter sido o grande boom para o grupo, concretizando o posto deles como o grupo mais importante da história do RAP Nacional, ele trás uma produção impecável do KL Jay. Nomes como Isaac Hayes, The L.A Express, Edwin Starr, Curtis Mayfield, Tim Maia, Bar-Keys, entre vários outros figuram entre as amostras usadas pelo DJ e produtor para compor o disco.  As batidas, sempre muito agressivas, assemelhando ao Gangsta RAP americano, contrastam com os samples da velha escola do soul, funky, blues, o que eu acho foda pra caralho.

 

Difícil para mim, que sempre tive um apreço maior por batidas do que por letras, escolher qual delas eu mais gosto, percebo que todas foram feitas de forma muito estudada e nenhuma delas se parecem nesse disco, apesar da temática uniforme. Mas, andar de Opala ouvindo “Capítulo 4, Versículo 3” é quase um orgasmo auditivo. Outra música importante pra caralho é “Rapaz Comum”, um relato incrível da criminalidade, visto em primeira pessoa pelo Edy Rock, sendo essa, pra mim, a melhor letra do Cocão, de todos os tempos. O boombap tomou novas formas nesse disco, saindo do padrão de batidas de marcações “quadradas” (o que não é uma critica, mas uma forma que algumas batidas eram feitas no Brasil, nessa época, na questão do sequenciamento da bateria), para coisas mais elaboradas, com uma pegada mais quebrada, enfim, o padrão foi quebrado com primazia.

 

Ou seja, é um álbum para se ouvir do começo ao fim, sem ter a sensação de que as coisas foram feitas todas da mesma forma, Até porque, estamos falando de KL Jay, amigos.

 

Com relação as rimas, pode ser até algum clichê falar da qualidade e do storytelling que tem os integrantes do grupo, mas devemos frisar que, em 1997, a taxa de homicídio em São Paulo era a terceira maior da América Latina, e um jovem do bairro Capão Redondo tinha 12 vezes mais chances de morrer, segundo dados no site RAP Genius. A crueldade da polícia com a população das favelas era extrema. No mesmo ano do lançamento do álbum houve o caso da chacina na Favela Naval, em Diadema/SP, que ficou conhecido no Brasil todo. Foi um disco que retratou isso, onde a mídia jamais fez questão de entrar é contar a história daquelas pessoas. Foi um disco que escancarou problemas que os negros sofrem no Brasil desde que aqui pisaram pela primeira vez. Não apenas os negros, mas os jovens de toda a periferia, não apenas em São Paulo, até porque “Periferia é periferia, em qualquer lugar a gente morre”. Em 2007 a Revista Rolling Stones elegeu o disco como o 14º melhor álbum da musica brasileira.

 

Nessa lista, além desse disco, temos também “Nada como um dia após o outro dia”, também dos Racionais. Com isso, podemos ver como era o cenário da época, não só para o RAP, mas para toda a cultura preta e periférica.

 

Passando por letras que trazem os poucos momentos de alegria, curtição dos negros e favelados da época, retratada em “Qual mentira vou acreditar”, os moleques perdidos na cola em “Magico de Oz”, os amigos que se foram, a vivência nas quebradas e nostalgia em “Formula Mágica da Paz”, entre muitos e muitos clássicos presentes no disco.

“Sobrevivendo no Inferno” é um documento histórico de como viviam, e de como eram mortos os jovens das comunidades carentes – o que o RAP nunca deveria deixar de ser.

Para quem ainda não conhece o disco OUÇAM o quanto antes e peguem o Asè dos Deuses do RAP Nacional.

Disco dos Racionais é presente da Prefeitura de São Paulo para o Papa

O álbum “Sobrevivendo no Inferno” foi o presente escolhido pela prefeitura de São Paulo para dar ao Papa Francisco. Isso mesmo que você acabou de ler!

O prefeito Fernando Haddad participou de seminário no Vaticano nesta semana junto com outros prefeitos do estado. A ideia do presente foi repassada por um grupo de jovens da periferia ao coordenador de Políticas para Juventude, Cláudio Aparecido da Silva.

Haddad teve audiência com o Papa Francisco nesta terça-feira (21), mas não conseguiu entregar o disco. O secretário de Relações Internacionais da Prefeitura, Vicente Travas, que segue em seminário em Roma, deve deixar o LP, autografado pelos integrantes do grupo, aos cuidados do Papa por meio do chanceler do Sacro Colégio. Ainda há uma chance!

Que momento que o rap esta vivendo hein meus caros leitores!

Fonte : http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2015/07/disco-dos-racionais-e-presente-da-prefeitura-de-sao-paulo-para-o-papa.html

Sobrevivendo_no_Inferno