O produtor Jundiaiense SonoTWS acaba de lançar sua nova tape, “Street Talk”.

Conheci o Sono na época em que eu arriscava uns grafites pelas ruas de São Paulo, isso em 2013, quando o mano lançava seus bombs pela gangue TWS (“Os Meia de Lã”, dai vem a sigla do seu vulgo). Tempos depois, o mano lançou sua primeira tape, chamada “TWS”, pelo selo BeatWise Records, daqui de São Paulo.

De lá pra cá o cara havia lançado mais dois trabalhos, “Mocado”, também pela Beatwise e “Sentimentos” , lançado pelo selo americano Us Natives Records”

Hoje foi lançado seu quarto trabalho, intitulado “Street Talk”, mas dessa vez pelo próprio selo do produtor, chamado “Tired of People”, que era um sonho do cara, como ele explica:

“É a primeira do meu selo Tired Of People, algo que sempre sonhei e fiz tudo do jeito que eu queria, com a estética que eu queria, tudo nos mínimos detalhes. Chamei os amigos para colaborar e o mais legal de tudo isso, consegui pagar todos eles, fortalecendo também a arte/cultura independente e o corre de cada um.”

“Street Talk”, vem com a estética já muito particular do cara, retratando por meio de batidas de kick seco, samples dos anos 90, arranhos de disco e baterias que nos transportam a Golden Era do RAP, as noites pela cidade, os rolês de graffiti e a vivência pelas madrugadas do mundo. É uma trilha sonora perfeita para quem gosta da noite, das caminhadas, e dos jets. É também um resgate do estilo e da própria união da cultura Hip-Hop, como podemos observar pela capa da tape, criada pelo escritor de rua “OBOE”, referência em fotografia,tag, graffiti, ou seja, os elementos do Hip-Hop se fazendo presente dentro do trabalho do Sono.

A tape, composta por 19 faixas, foi produdiza nos samplers Emu Sp-12 Turbo, Akai S950 e Sp303, o que dá um tom ainda mais nostálgico.

As 14h começa a pré-venda da tape no BandCamp oficial do selo, onde serão vendidas 25 fitas no Brasil e mais 25 para o exterior. Então corre, garanta a sua e bote nos fones, pois o Sono é foda e, quem não conhece, vai se surpreender com a qualidade do trabalho do cara.

 

 

 

 

 

 

 

 

Sobre mulheres, cinema, futebol e as festas na ilha: A obra-prima do Jovem Maka.

Lembro do dia que a Dé (colaboradora do Rap Em Movimento) me mandou essa mixtape no inbox e disse: “Marco, escuta isso que acho que você vai gostar”.

Eu sou um pouco resistente para conhecer coisas novas, por causa do meu amor por tudo que é velho, porém a capa me chamou muita atenção: uma ilustração simples do que parece ser uma mulher, ou duas mulheres, entrelaçadas em suas partes íntimas. Dei play, e dali em diante esse álbum virou um grande novo amor nos meus fones.

Makalister é um MC de Santa Catarina, mais precisamente Florianópolis, que já lançou alguns trabalhos anteriormente, como o EP “Makalister Renton, que vocês podem conferir aqui e muitos outros singles lançados em seu canal no YouTub

Seu nome é uma homenagem ao jogador de futebol Mac Allister, que atuava pelo Boca Juniors, da Argentina; Como podemos notar aqui, e durante a análise de alguns sons do Maka, ele tem uma paixão muito grande por futebol, o que ele desenrola em suas músicas.

O cara, que  sem trampar desde agosto desse ano, decidiu usar esses 4 meses que restam de 2016 para dar vida as suas produções, como o mesmo afirmou em entrevista para a VICE.

Mas, tirando um pouco do foco sobre os trabalhos anteriores do MC e de sua vida, fiquei encantando pelo último trabalho lançado, que é o tema dessa resenha.

“Laura Miller Mixtape”, que dá nome à obra, é uma homenagem, como o mesmo sinalizou no lançamento do trampo no seu canal na internet. Uma homenagem a suas influências e toda sua rica bagagem cultural que permeia a mixtape. Aliás, esse é o primeiro lançamento de uma trilogia chamada “Sexo a Três”, que conta com mais dois lançamentos chamados “Camila Pitanga Mixtape” e “Fernanda Takai Mixtape”. Daí já podemos ter uma ideia do que vem pela frente.

“Laura Miller Mixtape” e´quase que totalmente baseado nas experiências do Maka a acerca do amor, sexo, e dos relacionamentos em geral. Claro que, durante as rimas, podemos ter uma ideia das reflexões do cara com relação a sua vida, sua visão de mundo, ideologias, bem como percepções sobre outros assuntos. Porém, o álbum tem uma carga enorme de rimas e histórias sobre o amor, e isso pode ser visto na própria capa do trabalho e em seu nome, inspirado na sexóloga do Programa Altas Horas.

O curioso sobre esse trabalho é que a maioria das rimas foram gravadas em um celular, dando um tom sujo e caseiro ao trabalho, o que, ao contrário do que se possa imaginar, não tira mérito a qualidade da mixtape, que foi mixada pelo Goss e Rodrigo Locaut, além das produções, que beiram o TRAP e beats experimentais, dos quais me chamaram muito a atenção pela qualidade, sendo alguns produzidos pelo próprio Maka e outros manos como Elifi, Victor Xamã e Arit.

A mixtape começa com “Punto G”, que faz um trocadilho com o Ponto G, e é uma música onde o Maka fala sobre uma garota que se relacionou e alguns de seus gostos e suas visões de mundo, Além disso, ele trás a sua percepção sobre o jogo do RAP e sobre seus desejos com relação ao seu futuro, como podemos ver no trecho:

E quando eu partir outro guerreiro nasce/Eu vou fazer valer os meus dias na terra/Bem sucedido, muito fino/Escrevendo livros, dirigindo filmes/Tatuar na costela “SPEED FREAKS”/Rodar o Brasil enquanto escrevem “disses”/Copiando o meu flow e o estilo dos beats”.

Além disso fica explicito o amor do cara pela arte, e sua influência pelo underground.

O trampo vai se desenrolando com sons como “Um homem que dorme”, uma das várias referências ao cinema cult, como ao filme de mesmo nome do som. Aliás, graças a esse trabalho, eu mesmo passei a me interessar mais por cinema e conhecer um pouco desse “lado b” da cena. Outro som que tem o título inspirado no cinema é “Pele que abandono, fazendo alusão ao filme espanhol “Pele que habito”.

Fica difícil falar de todas as músicas da mixtape detalhadamente, porém, dois sons me chamaram muito a atenção e por isso quero citar ambos nesse review.

O primeiro deles é “JovemBlvckFriday” que tem um dos beats mais cabulosos do trabalho pelo estilo atemporal e experimental do mesmo, sendo complicado até mesmo de dizer qual estilo do mesmo. E tem uma letra que mostra uma outra face do MC, talvez mais otimista e menos melancólica, ou menos nostálgica com relação ao amor, caso prefiram este termo. Se baseia nas “festas da ilha”, onde o mesmo reside, e serve de pano de fundo para muitos dos rolês do Maka, “onde as garotas bonitas se soltam”, como o mesmo diz na rima.

Outra música que me chamou a atenção foi “Faixa 08”. Em minha opinião é a faixa que bate o carimbo quanto a qualidade da sua lírica, a bagagem cultural que o MC incorpora em suas músicas e que mostra toda sua capacidade metafórica, marca registrada nas rimas e que me deixou apaixonado por esse trabalho.

Em versos como:“Mulher indômita/Fruta que caiu longe do pé/Longe do prédio” podemos ver o jogo de palavras, a exploração do mesmo com relação a palavras pouco usadas em rimas, e a metáfora entre “fruta que caiu longe do pé” e uma pessoa que o MC, segundo suas rimas, não teve com ele.

No resto da música, como nas demais da mixtape, podemos notar o uso de pano de fundo de situações banais, mas com uma riqueza enorme de detalhes, o que faz com o que o álbum se projetasse na mente de quem o ouve, se tornando quase que um clipe mental.

Um adendo é que, todas as demais músicas são muito fodas e trazem suas particularidades, mas todas elas envolto dessa temática, o que torna a mixtape bem fluída. sendo possível ouvi-la do começo ao fim, o que é muito agradável para quem tá curtindo o som.

Resumindo, “Laura Miller” é um álbum que trás boas e más lembranças para todos aqueles que já viveram histórias de amor, de sexo, mas que mexe com a cabeça e imaginação de quem está ouvindo. Makalister é um dos MCs mais líricos e talentosos da nova geração, e confesso que, esse foi um dos meus álbuns favoritos do ano. Fica evidente a facilidade do Maka em contar situações com detalhes que nos fazem imergir na história e no som, criando todas as situações ali apresentadas. E também não deixa de ser uma grande referência para quem é amante da sétima arte. É um trabalho que pode ser escutado junto do seu amor, da galera, mas que, quando sozinho, na madrugada, tem um sabor muito especial.

Vocês podem conferir a mixtape aqui e seguir o trabalho do Makalister em sua página no facebook facebook.

Made in Brazil

A música brasileira é rica, isso é incontestável. Vários gêneros se fazem presente em nossa história, mas um deles se tornou especial: A MPB.

O termo surgiu na década de 60, associado à interpretação feita por Elis Regina da canção Arrastão, de Vinicius de Moraes e Edu Lobo.Muitos elementos são associados a MPB, em especial o Soul, Funk e Bossa-Nova.

O RAP surgiu no Brasil na década de 80, onde a maior referência no país eram os grupos surgidos em Nova Iorque, e em outras cidades americanas, um dos berços do ritmo. Na época, com a novidade em nosso país, claro, as referências que tinhamos de produção de letras e batidas eram todas dos EUA.

Com o tempo, nosso RAP foi tomando maturidade, criando seu próprio estilo, e bebendo da nossa MPB para criação de batida, utilizando samples de músicas nacionais. Destaque para Racionais MCs e alguns outros grupos da época que passaram a utilizar essa nova sonoridade em suas músicas, dando uma cara brasileira para nosso RAP.

Porém, nos anos 2000 cresceu um movimento contrário, onde produtores renomados da escola americana, principalmente do underground, se viraram para nossa qualidade sonora, com destaque para a MPB dos anos 70, e demais décadas.

Artistas como Madlib, J Dilla, MFDoom, J Cole, Joey Bada$$, Knxwledge, entre muitos outros que, ao longo desses últimos 20 anos vem valorizando o que há de melhor em nossa MPB.

Abaixo vocês podem conferir um compilado de algumas músicas que utilizam samples, recortes e fazem referência e homenagem a nossa música:

 

J. Cole – God’s Gift / Milton Nascimento – Francisco

 

Madvillain – Rhinestone Cowboy / Maria Bethânia – Mariana, Mariana

 

Knxwledge – Theyfeelit / Claudia – Deixa eu dizer

 

Joey Bada$$ – Alowha [Prod. By Kirk Knight] / Marcos Valle – Previsão Do Tempo

 

Madvillain – Raid / Osmar Milito e Quarteto Forma – América Latina

 

Nujabes – The Space Between Two World / Toninho Horta – Waiting For Angela

 

The Pharcyde – Runnin [Prod. J Dilla] / Stan Getz – Saudade Vem Correndo

 

A.G. – Yeah Nigga / Trio Mocotó – Não Adianta

 

Madvillain – Supervillain Theme / O Terço – Adormeceu

 

Huss und hodn – Reichwerfen / Chico Buarque – Ligia

 

J Dilla – Brazilian Groove / Ponta De Areia – Earth, Wind, & Fir

 

MF Doom – Absolutely / Ponta De Areia – Earth, Wind, & Fire

 

Madlib Medicine Show No. 2 – Flight to Brazil / Brazil by Music – Brazil by Cruzeiro (1972) /  Eduardo Araujo & Silvinha ‎- Opanige (Este trabalho, em especial, é uma coletânea de músicas brasileiras. Vale a pena procurar todos eles.https://www.youtube.com/watch?v=T5vQ1G1bPdc

 

Madlib – Speto de Rua / Este foi um trabalho gravado em uma viagem do produtor, em 2002, pelo Nordeste Brasileiro. Não está disponível no youtube, mas no link abaixo tem mais informações sobre o trabalho, bem como ele pode ser adquirido.

https://www.discogs.com/Madlib-Speto-Da-Rua-Dirty-Brasilian-Crates-Volume-1/release/1543475

 

Enfim, são muitos os músicas gringos que na música brasileira encontram inspiração para suas criações. Esses foram alguns exemplos e amostras, porém, o catálogo é enorme.

Espero que curtam, e vamos valorizar nossa música, que tem uma riqueza e importância enorme.