Carranca Records anuncia arte do seu próximo lançamento, “Grime Over”.

Selo Carranca Records anuncia arte do seu novo single, “Grime Over”.

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O coletivo de RAP Carranca Records anunciou hoje a arte do seu novo trabalho, com sairá em breve nas plataformas digitais do time.

“Grime Over” é o novo single do coletivo, que conta com o MC NGMA e o grupo ATTICA!, ambos do coletivo.

O conceito e direção de arte da capa ficou por conta do Arthur Garbossa, diretor de arte do selo e responsável pelas impecáveis capas e vídeos que compõem os lançamentos do coletivo.
Segundo Arthur, “a ideia da arte já vem do fato de que o som faz um trocadilho com game over e tem muita referência de jogos, foi uma abordagem na qual todos ficaram de acordo em fazer. Principalmente a arte ser em 8 bits. Busquei referências de jogos beat’em up tipo final fight, streets of rage, double dragon… que foram jogos nos quais condiz mais com a levada da música, já que ambos tão bem rua e voa “soco” pra tudo que é lado.”.

O som sai em breve, então fiquem ligados na página dos caras, já ouvi essa parada e vem porrada na cena por aí!

20 anos de “Sobrevivendo no Inferno”

” 60 por cento dos jovens de periferia sem antecedentes criminais á sofreram violência policial. A cada quatro pessoas mortas pela policia, três são negras.
Nas universidades brasileiras apenas 2 por cento dos alunos são negros.  A cada quatro horas, um jovem negro morre violentamente em São Paulo
Aqui quem fala é Primo Preto, mais um sobrevivente”

 

No final de 1997, era lançado o que, pra mim, é o maior álbum da história do RAP Nacional – e que talvez nada o supere em questão de importância ou qualidade, numa época em que ninguém dava atenção ao som que vinha das favelas do Brasil.

 

“Sobrevivendo no Inferno” foi o quinto álbum de estúdio lançado pelos Racionais MC’s. Antes disso, o grupo já tinha uma reputação de 10 anos na cena underground, onde o RAP, em quase sua totalidade, existia. O disco foi o maior divisor de águas dentro da cena e o primeiro a romper as barreiras do “subterrâneo”, e a atingir um conhecimento dentro da cena mainstream da música, chegando até a MTV e outros canais, passando da marca de 1,5 milhões de cópias vendidas na época do lançamento. Tudo isso de forma totalmente independente.
Mas, antes de falar sobre o disco de forma técnica, ou fazer uma resenha sob a ótica musical, acho importante dizer o quanto esse disco é importante pra mim, de forma sentimental, ou com relação a minha vida e iniciação ao RAP:

“O ano era 98, 7 anos de idade, meu pai trabalhava em um shopping na Avenida Paulista. Ele tinha um amigo, que tinha um Chevette (eu amo Chevette demais, espero que a fotografia de RAP me de granas pra comprar um, hahahaha), e sempre tocava nesse carro uma fita k7, com uma batida forte e umas letras que, na época, me apavoravam. Sempre que eu ia dar um rolê com meu coroa depois do trabalho, eu estava nesse carro, ouvindo essa mesma fita. Até que, um dia, perguntei ao amigo dele do que se tratava, e ele me mostrou uma capa preta, com uma cruz no meio e letras que eu – ainda, não entendia.

 

Capa criada pelo artista Marcos Marques.

 

Chegando em casa, um dia, disse que queria demais essa fita. Enchi o saco dos meus pais, até que eles me deram uma grana – algo em torno de 5 reais, para comprar a fita. Só que havia um porém: Meu primo também amava essa fita, e a única banca do bairro que vendia, tinha apenas uma fita. Decidimos, eu e meu primo, apostarmos corrida até a banca, para decidir quem ficaria com ela. Eu venci, e comprei a fita.

 

Nunca soube por onde ela se perdeu nesses 20 anos depois do episódio. Mas tenho uma lembrança maravilhosa dessa época, do que vivia, do mundo como era, do prazer que existia em ouvir RAP num toca-fitas e coisas do tipo. Deixo aqui registrado meu agradecimento ao meu pai e ao amigo dele, por me introduzirem, sem saber, ao mundo do RAP.”

 

Passada minha história ~lindinha~, gostaria de fazer algumas observações sobre o disco e desenrolar a resenha falando um pouco mais do trabalho.

 

“Sobrevivendo no Inferno” é o álbum mais aclamado dos Racionais por diversos motivos. Além de ter sido o grande boom para o grupo, concretizando o posto deles como o grupo mais importante da história do RAP Nacional, ele trás uma produção impecável do KL Jay. Nomes como Isaac Hayes, The L.A Express, Edwin Starr, Curtis Mayfield, Tim Maia, Bar-Keys, entre vários outros figuram entre as amostras usadas pelo DJ e produtor para compor o disco.  As batidas, sempre muito agressivas, assemelhando ao Gangsta RAP americano, contrastam com os samples da velha escola do soul, funky, blues, o que eu acho foda pra caralho.

 

Difícil para mim, que sempre tive um apreço maior por batidas do que por letras, escolher qual delas eu mais gosto, percebo que todas foram feitas de forma muito estudada e nenhuma delas se parecem nesse disco, apesar da temática uniforme. Mas, andar de Opala ouvindo “Capítulo 4, Versículo 3” é quase um orgasmo auditivo. Outra música importante pra caralho é “Rapaz Comum”, um relato incrível da criminalidade, visto em primeira pessoa pelo Edy Rock, sendo essa, pra mim, a melhor letra do Cocão, de todos os tempos. O boombap tomou novas formas nesse disco, saindo do padrão de batidas de marcações “quadradas” (o que não é uma critica, mas uma forma que algumas batidas eram feitas no Brasil, nessa época, na questão do sequenciamento da bateria), para coisas mais elaboradas, com uma pegada mais quebrada, enfim, o padrão foi quebrado com primazia.

 

Ou seja, é um álbum para se ouvir do começo ao fim, sem ter a sensação de que as coisas foram feitas todas da mesma forma, Até porque, estamos falando de KL Jay, amigos.

 

Com relação as rimas, pode ser até algum clichê falar da qualidade e do storytelling que tem os integrantes do grupo, mas devemos frisar que, em 1997, a taxa de homicídio em São Paulo era a terceira maior da América Latina, e um jovem do bairro Capão Redondo tinha 12 vezes mais chances de morrer, segundo dados no site RAP Genius. A crueldade da polícia com a população das favelas era extrema. No mesmo ano do lançamento do álbum houve o caso da chacina na Favela Naval, em Diadema/SP, que ficou conhecido no Brasil todo. Foi um disco que retratou isso, onde a mídia jamais fez questão de entrar é contar a história daquelas pessoas. Foi um disco que escancarou problemas que os negros sofrem no Brasil desde que aqui pisaram pela primeira vez. Não apenas os negros, mas os jovens de toda a periferia, não apenas em São Paulo, até porque “Periferia é periferia, em qualquer lugar a gente morre”. Em 2007 a Revista Rolling Stones elegeu o disco como o 14º melhor álbum da musica brasileira.

 

Nessa lista, além desse disco, temos também “Nada como um dia após o outro dia”, também dos Racionais. Com isso, podemos ver como era o cenário da época, não só para o RAP, mas para toda a cultura preta e periférica.

 

Passando por letras que trazem os poucos momentos de alegria, curtição dos negros e favelados da época, retratada em “Qual mentira vou acreditar”, os moleques perdidos na cola em “Magico de Oz”, os amigos que se foram, a vivência nas quebradas e nostalgia em “Formula Mágica da Paz”, entre muitos e muitos clássicos presentes no disco.

“Sobrevivendo no Inferno” é um documento histórico de como viviam, e de como eram mortos os jovens das comunidades carentes – o que o RAP nunca deveria deixar de ser.

Para quem ainda não conhece o disco OUÇAM o quanto antes e peguem o Asè dos Deuses do RAP Nacional.

O grupo ATTICA! lançou seu primeiro single “Dark Samba”.

O ATTICA! é um grupo recente, residente na cidade de SP, com integrantes da Zona Sul e Norte da cidade, formado pelo Tiago Moti, Akhim e DJ Guto.

Os manos lançaram hoje seu primeiro single, chamado “Dark Samba”, que trás uma batida TRAP pesada, produzida pelo angolano pretochines e mixado pelo Mud, do coletivo Ho Mon Tchain.

O som saiu pelo selo Carranca Records, que também é novo na caminhada, mas com pessoas de qualidade, que vem trabalhando muito para lançar os trabalhos na rua de todos os MC’s e produtores associados.

O single tem uma levada de rua forte, relatando vivências, rolês e reflexões acerca do que cada um deles presenciam na cidade de São Paulo e sobre suas questões internas.

Vocês podem conferir o som aqui.

Made in Brazil

A música brasileira é rica, isso é incontestável. Vários gêneros se fazem presente em nossa história, mas um deles se tornou especial: A MPB.

O termo surgiu na década de 60, associado à interpretação feita por Elis Regina da canção Arrastão, de Vinicius de Moraes e Edu Lobo.Muitos elementos são associados a MPB, em especial o Soul, Funk e Bossa-Nova.

O RAP surgiu no Brasil na década de 80, onde a maior referência no país eram os grupos surgidos em Nova Iorque, e em outras cidades americanas, um dos berços do ritmo. Na época, com a novidade em nosso país, claro, as referências que tinhamos de produção de letras e batidas eram todas dos EUA.

Com o tempo, nosso RAP foi tomando maturidade, criando seu próprio estilo, e bebendo da nossa MPB para criação de batida, utilizando samples de músicas nacionais. Destaque para Racionais MCs e alguns outros grupos da época que passaram a utilizar essa nova sonoridade em suas músicas, dando uma cara brasileira para nosso RAP.

Porém, nos anos 2000 cresceu um movimento contrário, onde produtores renomados da escola americana, principalmente do underground, se viraram para nossa qualidade sonora, com destaque para a MPB dos anos 70, e demais décadas.

Artistas como Madlib, J Dilla, MFDoom, J Cole, Joey Bada$$, Knxwledge, entre muitos outros que, ao longo desses últimos 20 anos vem valorizando o que há de melhor em nossa MPB.

Abaixo vocês podem conferir um compilado de algumas músicas que utilizam samples, recortes e fazem referência e homenagem a nossa música:

 

J. Cole – God’s Gift / Milton Nascimento – Francisco

 

Madvillain – Rhinestone Cowboy / Maria Bethânia – Mariana, Mariana

 

Knxwledge – Theyfeelit / Claudia – Deixa eu dizer

 

Joey Bada$$ – Alowha [Prod. By Kirk Knight] / Marcos Valle – Previsão Do Tempo

 

Madvillain – Raid / Osmar Milito e Quarteto Forma – América Latina

 

Nujabes – The Space Between Two World / Toninho Horta – Waiting For Angela

 

The Pharcyde – Runnin [Prod. J Dilla] / Stan Getz – Saudade Vem Correndo

 

A.G. – Yeah Nigga / Trio Mocotó – Não Adianta

 

Madvillain – Supervillain Theme / O Terço – Adormeceu

 

Huss und hodn – Reichwerfen / Chico Buarque – Ligia

 

J Dilla – Brazilian Groove / Ponta De Areia – Earth, Wind, & Fir

 

MF Doom – Absolutely / Ponta De Areia – Earth, Wind, & Fire

 

Madlib Medicine Show No. 2 – Flight to Brazil / Brazil by Music – Brazil by Cruzeiro (1972) /  Eduardo Araujo & Silvinha ‎- Opanige (Este trabalho, em especial, é uma coletânea de músicas brasileiras. Vale a pena procurar todos eles.https://www.youtube.com/watch?v=T5vQ1G1bPdc

 

Madlib – Speto de Rua / Este foi um trabalho gravado em uma viagem do produtor, em 2002, pelo Nordeste Brasileiro. Não está disponível no youtube, mas no link abaixo tem mais informações sobre o trabalho, bem como ele pode ser adquirido.

https://www.discogs.com/Madlib-Speto-Da-Rua-Dirty-Brasilian-Crates-Volume-1/release/1543475

 

Enfim, são muitos os músicas gringos que na música brasileira encontram inspiração para suas criações. Esses foram alguns exemplos e amostras, porém, o catálogo é enorme.

Espero que curtam, e vamos valorizar nossa música, que tem uma riqueza e importância enorme.