Dois anos de “Bad Neighbor”, colaboração entre Madlib x Blu x MED

2 anos do lançamento de “Bad Neighbor”, a colaboração entre Madlib, Blu e MED.

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30 de Outubro de 2015 era lançado o álbum “Bad Neighbor”, uma colaboração entre o produtor Madlib e os MCs MED – parceiro de longa data do produtor e também membro da gravadora Stones Throw, e Blu, outro grande MC com grande um clássico na rua, “Below The Heavens”, que esse ano completou 10 anos.

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Madlib, Blu e MED

O trio já havia lançado um trabalho anterior, “The Burgundy EP”, e chegou com uma proposta muito boa nesse disco: rimas sem muito compromisso ou temática específica e uma produção impecável do Beat Konducta. Gosto da forma como Madlib se reinventa a cada trabalho, fazendo o boom bap bater de formas cada vez mais inesperadas.

 

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Para as participações, um time de peso: MFDOOM chega com o bom e velho flow brilhante em “Knock Knock” que soa como uma faixa de Funky músic dos anos 70. Anderson Paak compôs um refrão maravilhoso para a faixa “The Strip”, mesmo eu sendo apaixonado confesso nos versos e a entrega do Blu no som. Em “Burgundy Whip” temos Jimetta Rose com um vocal lindo no refrão e mais uma vez o Blu arregaçando nas rimas. O clipe dessa faixa é outra coisa que vale muito a pena dar uma conferida, parecendo um filme 70′ analógico.

Aloe Blacc (aquele mesmo da “Blue Avenue”, faixa do Jazz Liberatorz e de tantos outros trabalhos bacanas) participa de “Drive In”, que soa como uma música de amor e para amar. Clima esse que também aparece em “The Buzz”, com participação de Mayer Hawthorne. Além desses nomes de peso, temos Hodgy Beats na faixa “Serving”, com um instrumental fudido. Porém, para mim, a cereja do bolo é “Streets”. Nela temos DJ Romes e Oh No, DJ, produtor e irmão de Madlib. Esse instrumental já existia há alguns anos em alguma versão da Medicine Show, e foi adaptado para o disco. Aqui é só mais um exemplo do que Otis Jackson pode fazer com uma SP404 e alguns discos de jazz

Apesar de não ter passado pelos holofotes do mainstrem, “Bad Neighbor” teve avaliação 7.2 no Pitchfork, 81/100 no site Metacritic e uma nota 4/5 nos sites HipHopDX e AllMusic, assim como foi muito bem recebido por várias outras mídias especializadas em música. O grande atrativo dele são os instrumentais impecáveis, as rimas de dois dos grandes MCs da cena underground e o peso das participações, fazendo o “Mau vizinhos” ser lembrado com muito respeito e admiração, 2 anos depois teu lançamento.

Ouça “Bad Neighbor”.

As mil faces de MFDOOM

MFDOOM é um enigma de mil faces. Nascido Daniel Dumile, em Londres, no ano de 1971, o rapper começou a carreira no KMZ, como grafiteiro e MC, sob a alcunha “Zev Love X”.

Após um hiato, retorna ao mundo do RAP como MFDOOM – inspirado no Doutor Destino, do Quarteto Fantástico, onde começa – de fato, o seu reinado.

DOOM, mais do que um dos MCs mais talentosos e aclamados da cena underground, é uma entidade, com uma seita de fãs espalhados pelo mundo. O enigma sobre sua identidade criou uma atmosfera por trás do MC, aliado a suas metáforas e facilidade em conduzir suas rimas em cima de qualquer batida, que fazem jus as qualidades citadas.

É daqueles caras que não dão entrevistas, não se vê pelas ruas, fazendo disso tudo a sua identidade como rapper e marca registrada, como a lendária Mascara de metal. Antes do lançamento do Madvillainy, em 2004, e da força que o Madlib deu para o cara na cena – como o próprio DOOM explica nas entrelinhas no som “Raid” (“On one starry night, I saw the light, Heard a voice that sound like Barry White, said “Sho you right”), DOOM atingiu um maior reconhecimento, carregando consigo a bagagem do seu clássico de estréia “Operation Doomsday“, e toda sua genialidade com a caneta e o Mic.

Além de rapper, grafiteiro, entidade-de-seita-de-fãs e padre nas horas vagas, muitos álbuns e colaborações foram lançadas com sua assinatura. Cada uma das suas personalidades trás um pouco do que é Daniel Dumile.

O Rap Em Movimento trás, então, uma lista de todas as colaborações e alter-ego do Super Mothafocka Villain, que inspirou uma geração, como Tyler The Creator, Earl Sweatshirt, Capital STEEZ e mais uma porrada de MC foda da cena!

Madvillainy, 2004

Se Deus tivesse um disco pra tocar no dia da Gênesis, esse seria “Madvillainy”. a obra prima criada por DOOM e Madlib foi, por muitos anos, desconhecida do público do mainstream. Lançado em 2004, é um dos discos mais aclamados da histõria do RAP, e o disco que trouxe DOOM para a margem da cena. Desde as batidas (muitas delas criadas no Brasil, durante uma viagem do Madlib para a terra dos Racionais MC’s), até as letras ácidas do DOOM, é lindo demais. Já falamos sobre o disco aqui no blog, aliás.

Operation Doomsday, 1999

 

Em 1999 era lançado o álbum de estréia do rapper como MFDOOM. Afim de enfrentar a indústria e o jogo sujo do mundo da música, adotou o personagem de um vilão de quadrinhos e sua mascara, item que se tornaria inseparável na carreira. Após  morte de seu irmão e o fim do KMZ, DOOM se apresenta ao mundo, e dá início a “Operação Fim do Mundo”. Mulheres, cervejas, quadrinhos, e um tom mais leve em comparação aos demais trabalhos dão o tom ao disco.

PS: Assistam o clipe “Dead Bent”, por favor.
King Geedorah, 2003

Caralho, King Geedorah É FODA DE-MA-IS!

Bom, muita gente que ouve o DOOM não sabe desse alter-ego dele. Não que seja um privilégio, mas a capa do disco é totalmente foda do habitual, os samples, os sintetizadores, os instrumentais.

“King Geedorah, Take me to your leader!”.

Ouçam “Fazers”, o violino arranhado, o sample que parece uma música apocaliptica e sejam felizes demais.
MM Food, 2004

Se você nunca ouviu “Hoe cakes” e “One  beer” (ONE BEER!!), volte duas casas, que eu não vou me aprofundar. Como diria um MC mascarado que se preze: “Average MCs his like a TV Blooper. MFDOOM his like a D.B Cooper!”.

Deguste!

 
SADEVILLAIN, 2016

A voz suave de SADE, as rimas metafóricas de DOOM, samples de Jazz. Lançamento não oficial, que surgiu em 2016, sendo, então, o último trabalho do MC até agora. Vale conferir, para, como disse acima, ver o cara em ação em outro tipo de universo musical. Particularmente acho uma combinação foda, e uma chance de ouvir o DOOM enquanto se está curtindo um momento a dois, hehehe

DangerDOOM, 2005

MFDOOM e Danger Mouse, histórias em quadrinho, combinação foda. Não é dos meus favoritos do MC, mas sempre vale conferir por si mesmo o rato e a mascara em ação!

NeruhVillain, 2014

 

Bishop Nehru foi muito falado por um tempo, apadrinhado por alguns dos mais renomados MCs da velha escola. Mas ainda não tem se ouvido muito falar do moleque pela cena. Achei o EP de estreia muito bom, e confesso que essa colaboração com o DOOM ainda tocou pouco em meus fones. Fica a dica para ouvirem, e fica a cobrança para que eu escute com mais atenção. Prometo que volto aqui para fazer alguns comentários no post.

Viktor Vaughn, 2003

Um projeto conjunto entre Doom e Sound-Ink, o enredo do Vaudeville Villain segue a vida cotidiana do super-vilão / beat cientista / traficante de drogas / kid Vik Vaughn. Assim segue mais uma das mil faces do Metal Face.

 

 

Pra finalizar, a prova de que MFDOOM é um dos MCs mais amados do mundo: Mos Def fazendo cosplay de Metal Face, num clipe (muito engraçado, hahahahahaha) de “All Caps”.

 

 

5 Melhores Álbuns de 2016 – Por Marcola

5 Melhores Álbuns de 2016 – Por Marcola

2016 foi um ano de realizações para o RAP. Tivemos uma série de lançamentos, descobertas, tretas saudáveis (ou não), quebras de paradigmas e, o melhor, muita música foda!

Foi um ano importante para a consolidação da cena que andava um tanto quanto parada, com fórmulas prontas e defasadas, com algumas poucas revelações.

E, ao meu ver, essa foi o principal ponto positivo para o movimento neste ano e, me baseando nisso, deixo abaixo a lista dos 5 melhores trampos do ano, em minha opinião.

 

BK – Castelos ¨& Ruínas

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O BK já andava mostrando um bom trabalho desde 2015, com o Nectar Gang, grupo que despontou na cena do RAP carioca.

Em Março de 2016 o BK a.k.a Flow Zidane lançou seu álbum de estreia, intitulado “Castelos & Ruínas”. Com uma temática obscura, totalmente auto-biografico e bastante analítico sobre a vida do Mc, é uma espécie de crise existencial de forma de poesia. Bk trouxe uma roupagem nova pra cena, utilizando uma enorme quantidade de metáforas e referências que vão desde mitologia grega até banalidades da vida no Rio de Janeiro e suas vivências, amores, planos, decepções e conquistas. Tudo isso me impressionou muito, pois se assemelha a muitos grupos e Mc’s do underground nacional dos anos 2000, dando ula aula de lírica, conhecimento que está além do RAP, fazendo jus ao apelido de “Flow Zidane”; Destaque para a música “Não me espere”, que tem uma grande carga das inúmeras referências citadas acima.

Vale muito a pena conferir, porém, dificilmente vocês não ouviram falar desse álbum que, pra mim, levou o título de melhor trabalho do ano e que vocês podem ouvir aqui.

 

D.D.H – Direto do Hospício

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Eu tive a honra de conhecer o D.D.H por uma amiga de Salvador, que havia me apresentado o som do BACO, antes do boom da faixa “Sulicidio”, que foi a grande responsável por uma das melhores coisas do ano, que foi a virada dos holofotes para o Nordeste.

D.D.H é uma dupla formada por Mobb e Baco Exu do Blues, e que nesse ano lançou o EP “Direto do Hospício”, compilando algumas faixas lançadas ao longo do ano.

É um EP dificil de digerir, visto a brutalidade e banalidade com a qual lidam com temas como a morte, violência, racismo, entre outros problemas que o povo pobre tanto sofre. Usando uma linguagem nas poesias de escarnio, muitas referências filosóficas e uma pitada grande de sarcasmo, o EP apavora nas produções, nas letras cheios de jabs na cara da sociedade e dos problemas sociais. Mas, depois de entender a linguagem e a intenção dos caras com suas letras, se torna uma obra prima para os ouvidos. D.D.H literalmente vem do hospício de Salvador para expor para todos a vida que passa em vão sob nossos olhos.

O grande destaque do EP é a faixa “Santíssima Trindade da Sujeira”, com participação do Beirando Teto, que é uma viagem psicodélica entre a espiritualidade, o álcool, a cena defasada do RAP, a desgraça do mundo e. claro, a cidade de todos os santos. Tudo com uma carga enorme de agressividade. Mas, para entender exatamente toda essa temática e esse universo paralelo do som dos caras, vocês PRECISAM ouvi-lo.

 

Isaiah Rashad – The sun’s tirade

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Sou fã do Isaiah a pouco tempo, desde quando conheci o grande “Pieces of a Kid“.

O rapper associado da TDE, que tem apenas 25 anos, lançou esse ano o álbum “The sun’s tirade”, um álbum resumidamente obscuro. Com batidas experimentais, e sempre muito boas, como em todos os seus trabalhos, o trabalho veio carregado de rimas sobre seus problemas psicológicos, vivências e problemas enfrentados pelo jovem Mc durante a vida. Tema esse que, infelizmente, tem sido recorrente, mas pelo lado positivo, sido exposto por quem o enfrenta. ´Problemas com o álcool e drogas seguem a trilha desse trabalho pesado, e muito lindo. É uma grande auto-reflexão do Isaiah sobre seus monstros internos.

Destaque para a faixa “Wat’s wrong” com participação do Kendrick Lamar, que trás uma reflexão sobre como corremos em círculos na vida, os pensamentos que nos limitam, o que queremos alcançar e os fracassos, ansiedade, preocupações, entre outras formas de limitação que todos nos enfrentamos, retratados nessa linda faixa.

Vocês podem conferir o álbum completo aqui.

 

J Dilla – The Diary

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Falar de J Dilla é falar de um membro do panteão de maiores produtores da história do RAP. James Yancey dispensa apresentações!

Porém, muitos o conhecem apenas como produto, ignorando o lado MC do lendário produtor de Detroit.

“The Diary” foi lançado em 2016, 10 anos após a morte do grande Dilla, e, diferente dos demais trabalhos póstumos, este foi especial pois além da produção das batidas, ele vem mostrando toda a habilidade como MC que possuia. Não só pela qualidade do trabalho e do Dilla, este álbum está na lista também pela felicidade que sinto em ver que o legado de Jay Dee será eterno, e a cada novo material lançado, ficamos felizes por ter a presença musical dele entre nós. Além do mais, este é o último material da série de trabalhos que Dilla havia deixado pronto antes de sua morte. O trabalho foi produzido entre 2001 e 2002, e conta com instrumentais de Dilla, Madlib,  Pete Rock e vocais de Snoop Dogg, entre outros produtores e Mcs que fecham esse time de peso.

Destaque para a faixa “Fuck the police” onde Dilla mostra todo seu “amor” pelos “homens da lei”, hehehe. Vocês podem conferir o álbum aqui.

 

Makalister – A Terça Parte da Noite

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Conheci o Makalister através da Déborah, também colaboradora do Rap Em Movimento.

Na época, ele havia acabado de lançar a “Laura Miller Mixtape”, em meados de Setembro desse ano. A mixtape, que alias eu diz um review aqui, dispensa comentários por toda sua qualidade. Depois de ouvi-la, fui atrás dos trabalhos anteriores do MC Catarinense, até chegar no EP “A Terça Parte da Noite”, lançado em Março de 2016.

Poesia é a palavra que resume o EP como um todo. Makalister usa de uma forma absurda e quase extraterrestre referências externas, que vão desde o cinema, sua marca registrada, aé livros, literatura, futebol, entre outras muitas formas de arte que o Mc absorve e fala com muita propriedade. Composta por 4 faixas, todas produzidas pelo próprio Maka, é uma viagem entre amores, rolês e vivências pela sua cidade, noites nos bares, filmes independentes e jogos do Figueirense. É daqueles trabalhos que você fica imerso na narrativa, sendo necessário, a cada verso, usar o buscador para entender e compreender as referências usadas, pois Makalister tem a capacidade de. em cada linha, usar uma quantidade enorme de metáforas ligadas a vários temas, o que torna o trabalho muito rico em questão de cultura e arte.

Destaque para a faixa “A vida e suas voltas redondas”, que é minha favorita por N motivos. Porém, acredito ser a faixa onde está mais explicito toda essa carga de referênxcia que eu reafirmo nessa analisa, como nos versos onde ele faz uma analogia genial entre futebol, sua infância e alguns filmes dos quais ele usou como tema.

Vocês podem conferir o EP aqui.

 

 

 

 

 

 

 

A história por trás da capa do álbum “Madvillainy”(2004), pelo Diretor de Arte Jeff Jank.

[Matéria originalmente publicada no site egotrip, que vocês podem conferir aqui

O antigo diretor de arte da Stones Throw Records, Jank – por meio de sua maravilhosa arte de capas e discos e singles, como as de Madlib (e sua miríade de encarnações, incluindo Quasimoto e Yesterday’s New Quintet), J Dilla , Dudley Perkins – exibiu tanto talento para criatividade em homenagem ao design vintage. Estimulado por uma fotografia impressionante feita pelo fotógrafo Eric Coleman, o design da capa do álbum de Jeff para Madlib MF Doom – collab inaugural do clássico de Madvillain Madvillany, é um exemplo fundamental de algo que preenche realmente muito bem ambas as categorias. Nós recentemente nos encontramos com o homem conhecido alternadamente como Funkaho para discutir a realização do LP e sua capa- um processo que envolveu troca, bongs, um abrigo anti-bombas e oportunidades para talvez assustar as crianças

 

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Qual foi a inspiração original para a capa do álbum Madvillainy e como evoluiu o conceito?

Jeff Jank: Naquela época, em 2003, Doom realmente não tinha uma imagem pública. Cabeças do hip-hop sabiam que ele usava uma máscara, que ele fez parte do KMD – Kausing Much Damage, um grupo de RAP criado em 1988, mas ele realmente era um mistério. Então, eu realmente queria ter uma foto dele na capa, só para fazer uma imagem definitiva do Doom. Especificamente eu estava pensando em uma foto desse homem, que por acaso usava uma máscara por algum motivo, ao contrário de “uma foto de uma máscara”. Eu não sei se a distinção ocorreria a qualquer outra pessoa, mas para mim era um grande negócio. Quero dizer, quem diabos anda com uma máscara de metal, qual é a história dele?

Eric Coleman veio com câmera e filmes e só encontrei ele um dia. Eu não me lembro se tivemos uma foto planejada ou se ele apareceu no dia certo. Doom e Madlib eram elusivos com fotos, por isso esta foi uma oportunidade. Nós os gravamos em nossa casa, onde o álbum estava sendo gravado.

Eu estava pensando na capa de “King Crimson’s In the Court of the Crimson King quando eu estava trabalhando nesta foto. Eu usei para verificar esse cara vermelho gritando no álbum de King Crimson na coleção do vinil do meu pai quando eu era uma pequena criança e ele realmente me sacudiu – Eu estava realmente assustado olhando através de seu vinil. Eu esperava que essa foto desse cara com uma máscara de metal fizesse o mesmo com algum outro garoto de 5 anos em algum lugar.

Outra coisa – apenas um pouco de brincadeira – foi que a foto em preto e branco [de Doom] me lembrou de alguma forma a primeira capa do álbum Madonna, apenas ela em preto e branco – ela disse “MADONNA” “O” era laranja. Eu vi as duas fotos lado a lado e ri como se fosse alguma versão rap de Beauty & the Beast. Então eu coloquei um pequeno pedaço de laranja no canto, em parte porque precisava de algo distintivo, e em parte para combinar com a cor de Madonna.

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Descreva como era o ambiente de trabalho na Stones Throw na época. Vocês estavam todos vivendo juntos na mesma casa, certo?

Jeff Jank: Sim, estávamos todos nesta casa em East, Los Angeles, e eu ainda vivo lá hoje sozinho. [Peanut Butter] Wolf tinha este tipo de rótulo de DJ do quarto hip-hop que ele tinha começado alguns anos antes, e decidiu se mudar para L.A. para trabalhar mais perto com Madlib. Egon e eu nos juntamos ao mesmo tempo. Foram os três, sem planos e sem dinheiro. Madlib mudou-se para lá, primeiro montou uma loja na sala de estar, e depois entrou no abrigo anti-bombas da era dos anos 50, com paredes de concreto de 18 polegadas. É como se fosse feito sob encomenda para ele – ele fez música o dia todo em uma programação consistente que realmente me impressionou – e o mais impressionante eram  suas três pausas por dia, que eram para fumar gigantescos montes de maconha;

Nós todos apenas mergulhamos nisso como um projeto vivendo nele 24/7. Depois de fazer isso por um ano ou dois, um dia Madlib disse que gostaria de trabalhar com Doom. Egon conhecia um cara que sabia quem conhecia Doom, e a próxima coisa que você sabia que Doom também estava fazendo: “Fazer bongs no telhado na Costa Oeste”, como ele diz na primeira faixa que ele escreveu para o álbum. Eu realmente não percebi o que era um momento idílico, até que as coisas ficaram mais complicadas alguns anos depois.

O que você lembra sobre o processo de Madlib e Doom trabalhando juntos, e como eles moldaram suas próprias idéias de como apresentar a música?

Jeff Jank: A parte mais importante de seu processo é simplesmente que Doom entendeu Madlib. Ele entendeu de onde ele estava vindo com a música, como isso se relacionava com os discos que eles ouviram dos anos 60-90, e a inclinação de Madlib para trabalhar sozinho em privacidade. Doom era tudo para ele.

Eu freqüentemente buscava Doom em um hotel cada dia. Chegamos a uma loja de bebidas às 10h. Escrevia na varanda dos fundos, Madlib fazendo a coisa lá embaixo no abrigo de bombas. Eu não sei dizer se isso influenciou a obra de arte. Na maioria das vezes eu estava apenas preocupado com o álbum ficar terminado. Eu também tive essa confusão com Doom onde fizemos um comércio: eu fiz uma pintura em troca dele colocando algumas palavras-chave desafiadoras nas letras. Essas palavras permanecerão secretas, mas estou feliz em dizer que ele colocou para fora um par de meus personagens de desenho animado Hookie & Baba na faixa lounge “Bistro”.

Em algum lugar ao longo do caminho, a primeira demo “Madvillainy” vazou na web, e realmente azedou o processo para eles. O processo de levá-los de volta ao trabalho levou a maior parte de 2003, e as últimas partes do álbum foram muito mais difícil do que tudo. No final quase todo mundo estava frustrado, e eu acabei sendo o último cara no estúdio fazendo uma pequena edição aqui e ali, o que eu nunca tinha feito antes no Stones Throw. Eu dirigi para casa pensando, esta é uma ótima música, um grande beatmaker, um grande MC, e eu tenho um grito para os meus personagens de desenhos animados, a vida é muito boa.

Apesar disso, fiquei realmente surpreso com o amor que o álbum teve. Até hoje eu vejo novas pessoas descobrindo e sendo inspirado por esse disco e estou realmente feliz por ter feito parte dele. (Isso até torna o processo multi-ano do mítico segundo álbum algo suportável.)

Embora eu soubesse que Doom fez parte do KMD, eu não sabia até um pouco mais tarde que ele tinha desenhado a capa de Black Bastards ou tinha algo a ver com artes visuais. Conversamos mais sobre isso mais tarde, mas no momento tudo que eu sabia era que ele estava sendo absolutamente contra o uso de seu “rosto” na capa. Quando ele veio para ve-la um dia, seu cara Big Ben Klingon simplesmente estava com ele. Eu tive sorte. Doom gemeu quando viu a foto, mas Ben imediatamente percebeu. Ele estava uivando: “Olhe para esse cara, qual é a história dele ?! Isso é perfeito!” Ben agradeceu pela capa.

Made in Brazil

A música brasileira é rica, isso é incontestável. Vários gêneros se fazem presente em nossa história, mas um deles se tornou especial: A MPB.

O termo surgiu na década de 60, associado à interpretação feita por Elis Regina da canção Arrastão, de Vinicius de Moraes e Edu Lobo.Muitos elementos são associados a MPB, em especial o Soul, Funk e Bossa-Nova.

O RAP surgiu no Brasil na década de 80, onde a maior referência no país eram os grupos surgidos em Nova Iorque, e em outras cidades americanas, um dos berços do ritmo. Na época, com a novidade em nosso país, claro, as referências que tinhamos de produção de letras e batidas eram todas dos EUA.

Com o tempo, nosso RAP foi tomando maturidade, criando seu próprio estilo, e bebendo da nossa MPB para criação de batida, utilizando samples de músicas nacionais. Destaque para Racionais MCs e alguns outros grupos da época que passaram a utilizar essa nova sonoridade em suas músicas, dando uma cara brasileira para nosso RAP.

Porém, nos anos 2000 cresceu um movimento contrário, onde produtores renomados da escola americana, principalmente do underground, se viraram para nossa qualidade sonora, com destaque para a MPB dos anos 70, e demais décadas.

Artistas como Madlib, J Dilla, MFDoom, J Cole, Joey Bada$$, Knxwledge, entre muitos outros que, ao longo desses últimos 20 anos vem valorizando o que há de melhor em nossa MPB.

Abaixo vocês podem conferir um compilado de algumas músicas que utilizam samples, recortes e fazem referência e homenagem a nossa música:

 

J. Cole – God’s Gift / Milton Nascimento – Francisco

 

Madvillain – Rhinestone Cowboy / Maria Bethânia – Mariana, Mariana

 

Knxwledge – Theyfeelit / Claudia – Deixa eu dizer

 

Joey Bada$$ – Alowha [Prod. By Kirk Knight] / Marcos Valle – Previsão Do Tempo

 

Madvillain – Raid / Osmar Milito e Quarteto Forma – América Latina

 

Nujabes – The Space Between Two World / Toninho Horta – Waiting For Angela

 

The Pharcyde – Runnin [Prod. J Dilla] / Stan Getz – Saudade Vem Correndo

 

A.G. – Yeah Nigga / Trio Mocotó – Não Adianta

 

Madvillain – Supervillain Theme / O Terço – Adormeceu

 

Huss und hodn – Reichwerfen / Chico Buarque – Ligia

 

J Dilla – Brazilian Groove / Ponta De Areia – Earth, Wind, & Fir

 

MF Doom – Absolutely / Ponta De Areia – Earth, Wind, & Fire

 

Madlib Medicine Show No. 2 – Flight to Brazil / Brazil by Music – Brazil by Cruzeiro (1972) /  Eduardo Araujo & Silvinha ‎- Opanige (Este trabalho, em especial, é uma coletânea de músicas brasileiras. Vale a pena procurar todos eles.https://www.youtube.com/watch?v=T5vQ1G1bPdc

 

Madlib – Speto de Rua / Este foi um trabalho gravado em uma viagem do produtor, em 2002, pelo Nordeste Brasileiro. Não está disponível no youtube, mas no link abaixo tem mais informações sobre o trabalho, bem como ele pode ser adquirido.

https://www.discogs.com/Madlib-Speto-Da-Rua-Dirty-Brasilian-Crates-Volume-1/release/1543475

 

Enfim, são muitos os músicas gringos que na música brasileira encontram inspiração para suas criações. Esses foram alguns exemplos e amostras, porém, o catálogo é enorme.

Espero que curtam, e vamos valorizar nossa música, que tem uma riqueza e importância enorme.

O Hip-Hop pelas lentes de B+

O Rap em movimento além de falar sobre as novidades da cena do Rap, entretenimento e dar dicas o blog também traz curiosidades sobre personalidades, que mesmo não estando envolvidas dentro dos quatro elementos do hip hop, são muito importantes para o fortalecimento da cultura! Hoje vamos falar do fotógrafo B+

Brian Cross, mais conhecido no mundo da fotografia como B+ nasceu em Limerick, na Irlanda.Nos anos 90 B+ mudou-se para os Estados Unidos para estudar fotografia no Instituto da Califórnia, em Los Angeles. Logo começou a se envolver com a comunidade Hip-Hop, e desde então tem sido um dos maiores fotógrafos da cena.

Com uma carreira com mais de 20 anos B+ tem um portfólio de fazer inveja, já trabalhou com nomes como Beastie Boys, Ol ‘Dirty Bastard, Eazy-E, Jurassic 5, Company Flow, Blackalicious, Madlib, Blackalicious, The Fugees, Biggie, The Roots, Snoop Dogg, Count Bass D, Quantic, J Rocc entre muitos outros.

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O fotógrafo também foi responsável pela criação de diversas capas de álbuns, com destaque para Q-Tip, Eazy E, Madlib (no disco Shades of Blue, que é um clássico do mestre) e mais notavelmente, J Dilla.

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Aliás, falando de J Dilla, o Brian acompanhou e registrou os últimos meses de vida do gênio de Detroit. Umas das fotos mais clássicas é de Dilla e Madlib escolhendo discos em uma loja da Rua Augusta, em São Paulo, assim como a última foto dele em frente à sua casa, e também em seu funeral, em 2003.

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J Dilla e Madlib

 

Paralelo a fotografia, B+ é um dos responsáveis pelo projeto “BrasiliTime” que fala sobre alguns DJs, bateristas e músicos brasileiros. Veja aqui o documentário.

Abaixo algumas fotos clássicas do cara. E neste link [http://mochilla.com/bplus/] você pode conhecer um pouco mais sobre a história e o trabalho do fotógrafo.

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