Hip-Hop e a Nona Arte

Quem acompanha o Rap com frequência com certeza já escutou em algum som aquele papo real de que o Hip-Hop salva vidas, igual os super heróis que a gente sempre gostou de ver nos desenhos, nos filmes e nas HQ’s.

O Hip-Hop e as Graphic Novels sempre caminharam lado a lado, a quantidade de referências relacionadas a nona arte nas letras dos MC’s é imensa, por vários motivos:

  • Simples, a maioria dos heróis fazem o bem acima de qualquer coisa para ajudar os menos abastados;
  • Várias histórias clássicas retratam muito bem como caminha a sociedade em suas respectivas épocas de lançamento e acabam se tornando atemporal, mesmo que não seja de uma forma direta, alguns exemplos são:
    • V de Vingança
    • O Último Homem
    • Watchmen
    • Vampiro Americano
    • Guerra Civil
  • Os lançamentos costumam acompanhar as mudanças no mundo, tanto no âmbito político, quanto no social, exemplos:
    • Sam Wilson como novo Capitão América, que causou uma polêmica bem idiota pelo fato de uns nerd saudosista demais achar que o personagem perdeu a essência, mas que em contra partida casa muito melhor com o momento político americano atualmente;
    • Miss Marvel, personagem muçulmana da Marvel tentando se adaptar a vida nos Estados Unidos enquanto é uma heroína.
  • Os caras simplesmente gostam de ler Histórias em Quadrinhos.

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Uma relação de amor bem recíproca | Fonte: @thehiphopcovers

Essa união ficou mais evidente neste ano de 2018 com o aclamado Pantera Negra nos cinemas, que foi o mais politizado do universo cinematográfico da Marvel, e teve a trilha sonora comandada pelo monstrão Kendrick Lamar. Antes disso teve também a série Luke Cage com direito a Wu Tang Clan tocando enquanto o herói metia a porrada nos vilões, já falamos sobre isso antes.

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No Rap Nacional também é muito claro que as HQ’s são presentes na vida de vários MC’s, um dos bruxos lendários do Norte (Diomedes Chinaski), tem seu nome artístico inspirado na história O Dobro de Cinco, de Lourenço Mutarelli. Emicida lançou esse ano o som Pantera Negra, que tem referências do primeiro ao último segundo do som, e no trecho mais monstro da música mais monstra de 2015 (Mandume, na minha opinião), a Drik cita Tempestade e a Jean Grey pra dizer que manja das rima, e manja memo, sem falar do Vovô OGI, o Cronista da Cidade Cinza que faz Sampa ser tão intensa no imaginário quanto Gotham City, já falamos sobre isso também, entre outras várias citações.

As releituras do projeto Rap em Quadrinhos do Youtuber Load Comics e do ilustrador Wagner Loud mostram da melhor forma o que representa o Rap Nacional, boa parte das pessoas das gerações dos anos 90 pra cá foram e tem sido salvas pelo Hip-Hop, de forma direta e indireta, e ver Mano Brown, Emicida, Kl Jay e Kamau sendo representados como heróis e o motivo das releituras é fascinante, a maioria faz total sentido. É perceptível nas explicações das ilustrações, a ligação do personagem com o MC.

Tem ainda ilustrações da Negra Li como Tempestade, Black Alien como Dr. Estranho, Karol Conká como Vixen, dentre outros. O projeto promete ser mais grandioso do que aparenta, vai virar exposição, os desenhos serão colocados a venda e com possibilidade de pocket show em algum lugar aonde os desenhos serão expostos (espero que aconteça).

Abaixo algumas das ilustrações que já saíram, para acompanhar o projeto é só seguir do Load Comics e o Wagner Loud no Instagram.

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Black Alien como Dr. Estranho
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Drik Barbosa como Riri Williams
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Emicida como Miles Morales
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Mano Brown como Pantera Negra

 

HQ’s cantadas de Rodrigo OGI

Uma das coisas que mais me chama atenção nas obras que mais gosto da nona arte, é a forma como as histórias e os personagens, que muitas vezes podem soar não muito convencionais em outros meios, como cinema, livros, séries… Conseguem ter uma narrativa tão rica e cheia de possibilidades.

Muitas ótimas HQ’s tem personagens que parecem ser um tanto fora de contexto dentro do universo em que se passa a história, mas que casam com maestria com o decorrer da mesma. Exemplos disso são:

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Ezekiel em The Walking Dead, o líder de um lugar chamado “O Reino”, com um tigre como animal de estimação. Na mesma história vemos um homem que é chamado de Jesus e luta kung fu.
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Cassidy de Preacher, um personagem que parece ser um homem comum em um universo comum se revela sem qualquer aviso prévio ser um vampiro. Na mesma história temos um adolescente com a cara deformada, que é chamado de “Cara de Cú”.
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Sangrecco da brasileira Mesmo Delivery, um homem que trabalha em uma “empresa de transportes” para o diabo e faz cover do Elvis, não aparenta, mas é melhor na faca do que o Peter Coyote brasileiro.

Obviamente existem muitos outros personagens com essa características em muitas outras HQ’s, mas a questão aqui é que existe um rapper tupiniquim que consegue fazer esse tipo de coisa de forma magistral em suas músicas, o cronista da cidade cinza Rodrigo OGI.

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OGI procurando umas HQ’s no sebo, no programa Estamos Vivos com KL Jay, clique aqui para assistir o programa, mas termina de ler o texto antes.

O vovô OGI já disse mais uma vez em entrevistas que é um grande fã da nona arte, consequentemente a sua obra seria influenciada por isso, abaixo listo algumas (não todas) músicas dele com esse perfil que constroem sua “Gotham Sampa”, com personagens ou situações caricatas.

1 – Zé Medalha

Zé Medalha é um ótimo nome para uma história roteirizada por Garth Ennis, Mark Millar ou Brian Azarello, seja próprio ou mesmo um apelido para um chefe de gangue.

Na música ouvimos a narração de uma luta entre Rodrigo OGI e Zé Medalha, de uma forma onde o cronista cita os objetos usados na treta, e as referências para mostrar como ocorreu a luta.

Me faz lembrar de uma briga na história “Y – The Last Man”, onde a vilã Toyota narra cada movimento feito por ela e de sua oponente na briga, sempre falando dos movimentos, armas e brincando com referências japonesas para dizer que é melhor no mano a mano contra uma americana.

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Y – The Last Man | Volume 8 – Dragões de Kimono

2 – Minha Sorte Mudou  | 3 – Ponto Final

Em Minha Sorte Mudou e Ponto Final fiquei lembrando das HQs do Will Eisner, que mostrava de forma muito bem detalhada como era a vida dos lugares que se passavam suas histórias. Você pode observar um bairro comum de periferia ouvindo essa música, da mesma forma que pode ver de forma palpável como era a vida nas periferias de Nova York lendo “Um Contrato com Deus”.

4 – Escalada

Em Escalada, o que me chamou a atenção foi como OGI mostra a imagem com palavras de como é o personagem central da música:

José Carlos magricelo, tinha um terno amarelo
Dirigia uma Belina cor de caramelo carabina
Seu aspecto era de um hemofílico, crônico

Um cara um tanto quanto “fora dos padrões”, a não ser que seja comum o corretor imobiliário ter esse perfil.

A forma que o abismo é narrada na música me faz lembrar a HQ da Vertigo, A Casa do Fim do Mundo, onde ao olhar para baixo, o personagem pode ser surpreendido a qualquer momento por um monstro criado por ele mesmo.

5 – Trilogia Trindade

Em Trindade (que é dividida em três partes), Rodrigo OGI mais parece um personagem central de algum conto de Sin City, de rolê na cidade fria e falando dos perigos da noite na metrópole.

Ele consegue deixar nas três partes juntas bem palpável a ideia de como a cidade consegue ser densa, fria, colorida, alegre e doida ao mesmo tempo, bem como nas páginas da HQ de Frank Miller.

Destaque para a comparação do barman e do policial Delfin. Na parte três, é genial a forma como ele descreve o devaneio do personagem chegando em casa e se “conectando ao mundo das crianças”, (bem como Dwight McCarty fazendo analogia ao monstro em A Dama Fatal), e logo em seguida indo “lutar” ao estilo Street Fighter para pegar uma mina.