É sábado! Festa BLKKK chega a sua 19ª edição.

Sábado, dia 22 de Julho, a Festa BLKKK, idealizada em 2015, chega a sua 19ª edição, reunindo, mais uma vez, diferentes públicos, gerações e vertentes do Hip Hop numa só pista da Rua Augusta, no Bar do Netão, antigo Caos Augusta.
Vins, Rudeboy e Sobral são os DJs residentes que irão comandar a festa, junto com alguns djs do coletivo MOOC.
O nome BLKKK (pronuncia-se “black“) é uma homenagem a música “BLKKK SKKKN HEAD” do artista Kanye West, que inspira, entre outros artistas, o setlist da festa. Nomes como Diddy, Sango, Kaytranada, Amy Winehouse, Travis $cott e Rihanna são alguns exemplos de que o objetivo é misturar a galera, indo dos love songs até o bate cabeça.
Para quem ainda não conheçe, o coletivo de oito integrantes produz também edições especiais da festa. Em janeiro deste ano o pico escolhido pra celebração de dois anos da BLKKK foi o Telstar Hostels, com direito a mergulho na piscina e participação de convidados no lineup, como as minas do Hot Pente, Outro Planet, Nego E e outros monstros da cena. Já na ultima festa FREE organizada pela BLKKK, que aconteceu durante um domingo a tarde, foi a vez de lotar a House of Blubbles, até o último minuto, junto com convidados do coletivo MOOC.
Também promoveram muitos passinhos no Alberta#3 e em collabs como a da festa Dettona, Nigga High as Shit (RJ), Vibe, o Coletivo Pow Pow Pow e a marca Trapo Clothing no Morfeus Club. O trio de DJs residentes também foi convidado para o primeiro evento do “Word of Dance Brazil”, ano passado, que reuniu várias estrelas da dança de rua nacional e internacional.
Então, se liga e não perde o rolê!
Festa BLKKK
Rua Augusta, 84
Bar do Netão (Antigo Caos Augusta)

 

Abaixo vocês podem conferir em algumas fotos a vibe da festa.

 

Fotos por: @abrtrgo
Fotos das edições da festa. Créditos na imagem

As religiōes de matriz africana no Hip-Hop

Laroiye, Esù Onà!

O Candomblé surgiu em meados do século XVI, a partir da junção de elementos de várias religiões existentes no continente Africano.

Os povos do Império Yorubá (África Ocidental), Angola-Bantu (África Sunsariana ) e Jejé (África Ocidental) cultuavam deuses conhecidos como Orixás, Nkisis e Voduns. Da junção destas crenças, nasceu o candomblé brasileiro, como conhecemos. Essa junção ocorreu no Brasil, devido a necessidade dos negros de manterem suas tradições religiosas na terra onde foram escravizados.

Assim como no Brasil, muitos países dá América Latina foram destinos de escravos Africanos. Devido a isso, encontramos em Cuba a Santeria e no Haiti o Voodu Haitiano, outras formas de cultos africanos, além de outros países como EUA, etc.

Um dos símbolos mais conhecidos dessas religiões são os atabaques, ou tambores, dependendo dá localidade de origem. Os atabaques são instrumentos de uso ritualístico/religioso, utilizados para invocar as divindades.

Com o passar dos anos, os negros estabelecidos no Brasil passaram a usar esses instrumentos para criar estilos musicais distintos nas terras onde eram tocados. Podemos observar seu uso no carnaval, nos afoxés, na MPB, samba, entre vários outros estilos. E no Hip-Hop não poderia ser diferente. Com o advento das MPCs, mixers e samplers, muitos produtores se voltaram para a musicalidade africana para desenvolver suas batidas. E, além deles, MCs adeptos ou apenas admiradores das religiões vem retratando em suas rimas suas crenças nas religiões africanas, como forma de resgate de suas origens na Terra Mãe e reafirmando, com orgulho, seu sangue negro.

 

Emicida

A primeira vez que ouvi “Pra não ter tempo ruim”, da sua primeira mixtape “Pra quem já morreu um cachorro por comida, até que eu cheguei longe”, fiquei em choque com a lírica do Emicida, que na época voava. Num dos trechos do som, o MC versa “ceis vão lembrar que o punho cerrado é mais que o logo da Slum/Negro nagô, trago nos olhos Xangô e Ogum”. No mesmo disco, na faixa “Só isso” temos oa versos “A cota é andar com fé, que não costuma falhar/ Determinação e coragem, a força Ogun é que dá” e  “Com os Eparrey Iansã, que a Claras entoava na antiga”. Ogun, na mitologia Iorubá, é o Orixá da guerra, dos metais, das lutas, irmão de Oxóssi é um dos mais cultuados Orixás na África e Brasil.

Xangô é o grande Obà de Oyo, uma das cidades do Império Iorubá. Proc da justiça, dono do fogo, um guerreiro feroz, companheiro de Iansã, Orixá das tempestades, sensual, uma das guerreiras mais destemidas da mitologia, que as transforma num búfalo quando esta em apuros, sendo também, a mãe dos 9 céus, que guia os Eguns.

Além dessas rimas existe uma forte presença de termos religiosos e diversos do idioma africano em seu trabalho. Também é corriqueiro ver fotos do MC sempre com sua guia de Xangô no pescoço, ou com as vestimentas de santo.

 

Criolo

Criolo é um cara que valoriza a cultura nacional em todas as suas nuances. E sempre incluindo em seu repertório a musicalidade negra.

A faixa mais conhecida do MC, que chegou ao maimstream com uma mensagem de respeito e louvação aos Orixás africanos foi “Mario”. No refrão “Ogum adjo, ê mariô (Okunlakaiê)”, Criolo faz referência a uma linda cantiga da Nação Ketu ao Orixá Ogun, que diz “Ogun a jo e Mariwo (Ogun se manifeste com o seu mariwo), Akóró a jo e Mariwo (Akóró, se manifeste com o seu mariwo), Ogunpà lè pà lona (Ogun mata, tem poder de matar no caminho)
Oguna jo e Mariwo, E ma tù Ye ye (Vós sempre anima a nossa vida) (animar = reviver).

O Mario é a folha extraída do denzezeiro, item, indispensável no culto a esse Orixá, que usa a folha como forma de proteção a seus filhos e a  si mesmo.

Outra faixa conhecida é a que ilustra essa matéria, “Fio de Prumo” que é uma grande homenagem ao Orixá Exú, ja citado nessa matéria.

 

Orishas

Orishas é um exemplo engraçado. Escuto os caras desde meados de 2009, mas nessa época eu não era adepto das religiões de matriz africana. Jamais tinha reparado no nome é nas letras. Anos depois tudo fez sentido, hehehe.

O nome deriva da expressão “Orisà”, que significa “Força a cabeça”, e nada mais é do que o nome das divindades/semi-deuses cultuados no Reino Iorubá, Nigéria. O grupo cubano tem uma musicalidade incrível, com elementos da cultura latina entrelaçados com os elementos do Hip-Hip nascido nos EUA. Também usam como uma forma de professar a sua fé, como nas músicas “Shango” e “Canto para Elegua”. Shango é Xangô, como explicado nas linhas do Emicida. Já Elegua é mais complexo.

Mais conhecido por Esù (ou Exu, para os mais medrosos), este Orixá tem muitos nomes pelo qual é conhecido e reverenciado. Nos países da América central foi adotado o nome Elegua, que significa “O príncipe mensageiro”, é um dos – senão o mais importante Orixá do panteão, mensageiro e responsável por transportar o Asè.

 

Oshun

O duo de Nova Iorque vem pra mostrar que o Asè também corre na terra do racista laranja.
As minas, mais do que nas rimas, e nas batidas de jazz, adotaram a cultura das religiões africanas em suas vestimentas, adereços, clipes, fazendo do trabalho uma vivência na África.

O nome deriva de “Osùn”, sendo escrito dessa forma por causa da Santeria Cubana, que se fincou nos EUA devido também a imigração de cubanos para o país. A presença massiva da cor dourada, águas doces, maquiagens e forte apelo a beleza trazem toda a influência do Orixá na estética da dupla. Osùn é o Orixá das águas doces, da fecundidade, gestação, do amor, das relações, a mais bela Iyabà de Olodumarè.

Sua cor é o dourado, gosta de jóias, de de embelezar e encantar os homens da Terra. Assistam aos clipes das meninas que vocês vão se ligar na forte influência.

 

Ibeji

Ibeji é uma dupla de gêmeas cubanas, que fazem um som bem parecido com Oshun. O nome vem do Orixá de nome Ibeji, que, assim como as garotas, são gêmeos, segundo a Mitologia Ioruba.

Ibeji é o Orixá-Criança, em realidade, duas divindades gémeas infantis, ligadas a todos os orixás e seres humanos.

Por serem gémeos, são associados ao princípio da dualidade; por serem crianças, são ligados a tudo que se inicia e nasce: a nascente de um rio, o nascimento dos seres humanos, o germinar das plantas.

 

3030

O 3030 é um grupo de rap que utiliza elementos de música brasileira, visto como um dos nomes mais promissores da nova geração. A mistura Rap/Mpb se deu depois que os Mcs Lk e Rod se juntaram ao cantor Bruno Chelles, na intenção de inovar no cenário musical nacional, o que acabou culmimando na fundação do 3030, mais tarde fortalecido pela entrada do DJ Rafik, veterano produtor e DJ carioca.

Em uma de suas passagens, gravaram o som Ogum, saudando o Grande Orixã das lutas.

 

Opanijé

Criado em 2005, o grupo Opanijé (Organização Popular Africana Negros Invertendo o Jogo Excludente) é Formado pelo trio Lázaro Erê, Rone Dum-Dum e Dj Chiba D , diretamente de Salvador, Bahia.
Ao contrario do que o nome do grupo diz, Opanijé é uma palavra Iorubá que designa um toque sagrado, entoado para o Orixá Obaluaye, Omolu e Sakpata geralmente tocado para a divisão de um conjunto de comida ritual chamada Olubajé, quando todos em silencio recebem sua porção, e os crentes aproveitam este momento para pedir saúde e longevidade. O orixa dança numa representação simbólica, mostrando sua ligação com os mortos Iku e o seu domínio sobre a terra.

Atotô!

Essas são só alguns exemplos da ligação entre as religiões de Matriz Africana e o Hip-Hop. Mais do que mostrar nossas devoção ou louvar nossas crenças, é lindo podem usar de nossas raízes religiosas oriundas da Terra-Mãe e cultuadas a milhares de anos, para construir uma musicalidade original e homenagear nossos antepassados, tão marginalizados e expostos aos diversos tipos de maus tratos que o branco nos causa a anos. Obrigado a todos os que mantém nossa cultura viva, obrigado,

Asè pra quem é de Asè!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Banned In SP estréia no circuito underground com o pé direito, muito RAP, Punk, Reggae e cabeças sangrando.

Ontem, dia 10/06/2017 rolou a primeira edição da festa Banned In SP, no Zapata, região central de São Paulo. A festa foi organizada pelo coletivo Carranca Records, do qual faço parte como fotógrafo, cachaceiro e piadista de primeira.

O intuito da festa foi a celebração da contra-cultura e cultura de rua, levando para o palco o Reggae, RAP e Punk, tudo junto contra o fascismo e celebrando o amor, a rua e uma sociedade livre do preconceito.

No palco tivemos HFF, ATTICA!, Shazam, Sistah Chilli, DASH, Fear Of The Future e discotecagem do mano GuzBeats que mandou pra caralho na seleção.

Tivemos também nossa amada Larissa, que caiu no bate-cabeça. saiu com a cabeça sangrando, foi lá fora, colocou m gelinho e VOLTOU PRA RODA DAQUELE JEITO!

 

Confira abaixo as fotos de mais uma cobertura maravilhosa do Rap Em Movimento, nos sigam no facebook e instagram.

PAZ entre nós e pau no cú dos fascistas!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É PENTA! Festa PUNGA chega a sua quinta edição – e foi foda!

Domingo, 28 de Maio rolou a quinta edição da FESTA PUNGA – sendo também a quinta edição que o Rap Em Movimento chega fazendo barulho.
Já era a segunda vez em menos de 24 horas que eu estava na Casa da Luz (sábado rolou a festa Detonna, que recomendo pra quem curte um RAP, com show do HFF, grupo do meu mano Card). Dessa vez, o enredo era outro: Festa underground, com grupos que estão emergindo na cena, a proposta que a festa prega desde sua primeira edição. Mas tínhamos uma surpresa: DJ KL JAY (leia com a voz do Edi Rock na introdução do “Rotação 33”), dando aula de RAP, humildade, estilo e amor ao movimento. Aos 47 anos, como ele mesmo disse, depois de receber uma chuva de aplausos, tocando para a juventude, cada dia mais em forma, indo do Funky, passando pelos anos 70, boombap Golden era, chegando no TRAP (e vocês aí brigando por TRAP x “RAP de verdade”).
Quem abriu foi, com louvor, meu time Carranca Records. Não pude, dessa vez, dar o ar do meu talento como MC (pausa para rir), mas na próxima tô lá com meus irmãos bagunçando mais do que devo. Salve NGMA!
Tivemos apresentações também do mano L-B.M.C.K.M, Helibrown, Fleezus (Recayd Mob), Alt Niss e os meninos prodígio do Mob79. DJ Minizu tava na casa, comemorando aniversário (Salve,  O DJ!), meu irmão Beans tava na casa também. Infelizmente não pude ver o set dos moleques, que sempre vem tijolada, mas o importante disso tudo foi ver o movimento acontecer mais uma vez, com união, espaço e muito talento de todos os envolvidos.
Agradecimento especial aos irmãos do Zebra Filmes que fortaleceram no flash, e tavam lá fazendo um lindo trabalho de registro da festa.
Pra saber mais como foi o rolê, viajem nas fotos em nossa página no Facebook, e aqui embaixo, onde fizemos uma seleção do melhor que aconteceu.
Paz!

As mil faces de MFDOOM

MFDOOM é um enigma de mil faces. Nascido Daniel Dumile, em Londres, no ano de 1971, o rapper começou a carreira no KMZ, como grafiteiro e MC, sob a alcunha “Zev Love X”.

Após um hiato, retorna ao mundo do RAP como MFDOOM – inspirado no Doutor Destino, do Quarteto Fantástico, onde começa – de fato, o seu reinado.

DOOM, mais do que um dos MCs mais talentosos e aclamados da cena underground, é uma entidade, com uma seita de fãs espalhados pelo mundo. O enigma sobre sua identidade criou uma atmosfera por trás do MC, aliado a suas metáforas e facilidade em conduzir suas rimas em cima de qualquer batida, que fazem jus as qualidades citadas.

É daqueles caras que não dão entrevistas, não se vê pelas ruas, fazendo disso tudo a sua identidade como rapper e marca registrada, como a lendária Mascara de metal. Antes do lançamento do Madvillainy, em 2004, e da força que o Madlib deu para o cara na cena – como o próprio DOOM explica nas entrelinhas no som “Raid” (“On one starry night, I saw the light, Heard a voice that sound like Barry White, said “Sho you right”), DOOM atingiu um maior reconhecimento, carregando consigo a bagagem do seu clássico de estréia “Operation Doomsday“, e toda sua genialidade com a caneta e o Mic.

Além de rapper, grafiteiro, entidade-de-seita-de-fãs e padre nas horas vagas, muitos álbuns e colaborações foram lançadas com sua assinatura. Cada uma das suas personalidades trás um pouco do que é Daniel Dumile.

O Rap Em Movimento trás, então, uma lista de todas as colaborações e alter-ego do Super Mothafocka Villain, que inspirou uma geração, como Tyler The Creator, Earl Sweatshirt, Capital STEEZ e mais uma porrada de MC foda da cena!

Madvillainy, 2004

Se Deus tivesse um disco pra tocar no dia da Gênesis, esse seria “Madvillainy”. a obra prima criada por DOOM e Madlib foi, por muitos anos, desconhecida do público do mainstream. Lançado em 2004, é um dos discos mais aclamados da histõria do RAP, e o disco que trouxe DOOM para a margem da cena. Desde as batidas (muitas delas criadas no Brasil, durante uma viagem do Madlib para a terra dos Racionais MC’s), até as letras ácidas do DOOM, é lindo demais. Já falamos sobre o disco aqui no blog, aliás.

Operation Doomsday, 1999

 

Em 1999 era lançado o álbum de estréia do rapper como MFDOOM. Afim de enfrentar a indústria e o jogo sujo do mundo da música, adotou o personagem de um vilão de quadrinhos e sua mascara, item que se tornaria inseparável na carreira. Após  morte de seu irmão e o fim do KMZ, DOOM se apresenta ao mundo, e dá início a “Operação Fim do Mundo”. Mulheres, cervejas, quadrinhos, e um tom mais leve em comparação aos demais trabalhos dão o tom ao disco.

PS: Assistam o clipe “Dead Bent”, por favor.
King Geedorah, 2003

Caralho, King Geedorah É FODA DE-MA-IS!

Bom, muita gente que ouve o DOOM não sabe desse alter-ego dele. Não que seja um privilégio, mas a capa do disco é totalmente foda do habitual, os samples, os sintetizadores, os instrumentais.

“King Geedorah, Take me to your leader!”.

Ouçam “Fazers”, o violino arranhado, o sample que parece uma música apocaliptica e sejam felizes demais.
MM Food, 2004

Se você nunca ouviu “Hoe cakes” e “One  beer” (ONE BEER!!), volte duas casas, que eu não vou me aprofundar. Como diria um MC mascarado que se preze: “Average MCs his like a TV Blooper. MFDOOM his like a D.B Cooper!”.

Deguste!

 
SADEVILLAIN, 2016

A voz suave de SADE, as rimas metafóricas de DOOM, samples de Jazz. Lançamento não oficial, que surgiu em 2016, sendo, então, o último trabalho do MC até agora. Vale conferir, para, como disse acima, ver o cara em ação em outro tipo de universo musical. Particularmente acho uma combinação foda, e uma chance de ouvir o DOOM enquanto se está curtindo um momento a dois, hehehe

DangerDOOM, 2005

MFDOOM e Danger Mouse, histórias em quadrinho, combinação foda. Não é dos meus favoritos do MC, mas sempre vale conferir por si mesmo o rato e a mascara em ação!

NeruhVillain, 2014

 

Bishop Nehru foi muito falado por um tempo, apadrinhado por alguns dos mais renomados MCs da velha escola. Mas ainda não tem se ouvido muito falar do moleque pela cena. Achei o EP de estreia muito bom, e confesso que essa colaboração com o DOOM ainda tocou pouco em meus fones. Fica a dica para ouvirem, e fica a cobrança para que eu escute com mais atenção. Prometo que volto aqui para fazer alguns comentários no post.

Viktor Vaughn, 2003

Um projeto conjunto entre Doom e Sound-Ink, o enredo do Vaudeville Villain segue a vida cotidiana do super-vilão / beat cientista / traficante de drogas / kid Vik Vaughn. Assim segue mais uma das mil faces do Metal Face.

 

 

Pra finalizar, a prova de que MFDOOM é um dos MCs mais amados do mundo: Mos Def fazendo cosplay de Metal Face, num clipe (muito engraçado, hahahahahaha) de “All Caps”.

 

 

20 anos de “Sobrevivendo no Inferno”

” 60 por cento dos jovens de periferia sem antecedentes criminais á sofreram violência policial. A cada quatro pessoas mortas pela policia, três são negras.
Nas universidades brasileiras apenas 2 por cento dos alunos são negros.  A cada quatro horas, um jovem negro morre violentamente em São Paulo
Aqui quem fala é Primo Preto, mais um sobrevivente”

 

No final de 1997, era lançado o que, pra mim, é o maior álbum da história do RAP Nacional – e que talvez nada o supere em questão de importância ou qualidade, numa época em que ninguém dava atenção ao som que vinha das favelas do Brasil.

 

“Sobrevivendo no Inferno” foi o quinto álbum de estúdio lançado pelos Racionais MC’s. Antes disso, o grupo já tinha uma reputação de 10 anos na cena underground, onde o RAP, em quase sua totalidade, existia. O disco foi o maior divisor de águas dentro da cena e o primeiro a romper as barreiras do “subterrâneo”, e a atingir um conhecimento dentro da cena mainstream da música, chegando até a MTV e outros canais, passando da marca de 1,5 milhões de cópias vendidas na época do lançamento. Tudo isso de forma totalmente independente.
Mas, antes de falar sobre o disco de forma técnica, ou fazer uma resenha sob a ótica musical, acho importante dizer o quanto esse disco é importante pra mim, de forma sentimental, ou com relação a minha vida e iniciação ao RAP:

“O ano era 98, 7 anos de idade, meu pai trabalhava em um shopping na Avenida Paulista. Ele tinha um amigo, que tinha um Chevette (eu amo Chevette demais, espero que a fotografia de RAP me de granas pra comprar um, hahahaha), e sempre tocava nesse carro uma fita k7, com uma batida forte e umas letras que, na época, me apavoravam. Sempre que eu ia dar um rolê com meu coroa depois do trabalho, eu estava nesse carro, ouvindo essa mesma fita. Até que, um dia, perguntei ao amigo dele do que se tratava, e ele me mostrou uma capa preta, com uma cruz no meio e letras que eu – ainda, não entendia.

 

Capa criada pelo artista Marcos Marques.

 

Chegando em casa, um dia, disse que queria demais essa fita. Enchi o saco dos meus pais, até que eles me deram uma grana – algo em torno de 5 reais, para comprar a fita. Só que havia um porém: Meu primo também amava essa fita, e a única banca do bairro que vendia, tinha apenas uma fita. Decidimos, eu e meu primo, apostarmos corrida até a banca, para decidir quem ficaria com ela. Eu venci, e comprei a fita.

 

Nunca soube por onde ela se perdeu nesses 20 anos depois do episódio. Mas tenho uma lembrança maravilhosa dessa época, do que vivia, do mundo como era, do prazer que existia em ouvir RAP num toca-fitas e coisas do tipo. Deixo aqui registrado meu agradecimento ao meu pai e ao amigo dele, por me introduzirem, sem saber, ao mundo do RAP.”

 

Passada minha história ~lindinha~, gostaria de fazer algumas observações sobre o disco e desenrolar a resenha falando um pouco mais do trabalho.

 

“Sobrevivendo no Inferno” é o álbum mais aclamado dos Racionais por diversos motivos. Além de ter sido o grande boom para o grupo, concretizando o posto deles como o grupo mais importante da história do RAP Nacional, ele trás uma produção impecável do KL Jay. Nomes como Isaac Hayes, The L.A Express, Edwin Starr, Curtis Mayfield, Tim Maia, Bar-Keys, entre vários outros figuram entre as amostras usadas pelo DJ e produtor para compor o disco.  As batidas, sempre muito agressivas, assemelhando ao Gangsta RAP americano, contrastam com os samples da velha escola do soul, funky, blues, o que eu acho foda pra caralho.

 

Difícil para mim, que sempre tive um apreço maior por batidas do que por letras, escolher qual delas eu mais gosto, percebo que todas foram feitas de forma muito estudada e nenhuma delas se parecem nesse disco, apesar da temática uniforme. Mas, andar de Opala ouvindo “Capítulo 4, Versículo 3” é quase um orgasmo auditivo. Outra música importante pra caralho é “Rapaz Comum”, um relato incrível da criminalidade, visto em primeira pessoa pelo Edy Rock, sendo essa, pra mim, a melhor letra do Cocão, de todos os tempos. O boombap tomou novas formas nesse disco, saindo do padrão de batidas de marcações “quadradas” (o que não é uma critica, mas uma forma que algumas batidas eram feitas no Brasil, nessa época, na questão do sequenciamento da bateria), para coisas mais elaboradas, com uma pegada mais quebrada, enfim, o padrão foi quebrado com primazia.

 

Ou seja, é um álbum para se ouvir do começo ao fim, sem ter a sensação de que as coisas foram feitas todas da mesma forma, Até porque, estamos falando de KL Jay, amigos.

 

Com relação as rimas, pode ser até algum clichê falar da qualidade e do storytelling que tem os integrantes do grupo, mas devemos frisar que, em 1997, a taxa de homicídio em São Paulo era a terceira maior da América Latina, e um jovem do bairro Capão Redondo tinha 12 vezes mais chances de morrer, segundo dados no site RAP Genius. A crueldade da polícia com a população das favelas era extrema. No mesmo ano do lançamento do álbum houve o caso da chacina na Favela Naval, em Diadema/SP, que ficou conhecido no Brasil todo. Foi um disco que retratou isso, onde a mídia jamais fez questão de entrar é contar a história daquelas pessoas. Foi um disco que escancarou problemas que os negros sofrem no Brasil desde que aqui pisaram pela primeira vez. Não apenas os negros, mas os jovens de toda a periferia, não apenas em São Paulo, até porque “Periferia é periferia, em qualquer lugar a gente morre”. Em 2007 a Revista Rolling Stones elegeu o disco como o 14º melhor álbum da musica brasileira.

 

Nessa lista, além desse disco, temos também “Nada como um dia após o outro dia”, também dos Racionais. Com isso, podemos ver como era o cenário da época, não só para o RAP, mas para toda a cultura preta e periférica.

 

Passando por letras que trazem os poucos momentos de alegria, curtição dos negros e favelados da época, retratada em “Qual mentira vou acreditar”, os moleques perdidos na cola em “Magico de Oz”, os amigos que se foram, a vivência nas quebradas e nostalgia em “Formula Mágica da Paz”, entre muitos e muitos clássicos presentes no disco.

“Sobrevivendo no Inferno” é um documento histórico de como viviam, e de como eram mortos os jovens das comunidades carentes – o que o RAP nunca deveria deixar de ser.

Para quem ainda não conhece o disco OUÇAM o quanto antes e peguem o Asè dos Deuses do RAP Nacional.

Feliz aniversário, Knxwledge

Hoje o Rap Em Movimento presta homenagem a Glen Earl Boothe, nascido em 10 de Março de 1988, na Filadélfia, e que está completando 29 anos de idade.

O nome pode não ser familiar, mas esse produtor, hoje morando em Los Angeles e associado dá já lendária Stones Throw Records (gravadora com uns nomes como MF DOOM, Madlib, Oh No, MED, Blu, entre outros) produziu em 2015 “Momma” do álbum “Tô Pimp a Butterfly” do Kendrick Lamar e “Sued & Link Up”, numa parceria com Anderson Paak, chamada “NxWorries”, que foram os trabalhos que fizeram o cara colocar a cabeça pra fora do underground.

Estamos falando de Knxwledge.

Conheci o trabalho dele na faixa “Killuminati” na mixtape “1999” do Joey Bada$$ (Essa faixa, pqp!!!!!!!) , em 2012. Mas, lá em 2010 foi onde ele lançou seus primeiros trabalhos, como “Klouds” e “SKR∆WBERRIES.FUNK∆ISRS” (essa segunda mixtape é um trabalho bonito demais e o nome é uma analogia ao LSD, conhecidos como “Strawberry” em alguns lugares dos EUA e Europa).

De lá pra cá já foram mais de 83 lançamentos pelo BandCamp, e estamos falando de um produtor relativamente novo na cena, com 7 anos de trabalho.

Como falamos, ele atingiu um reconhecimento recente na cena mainstream, mas é no underground que ele mostra todo seu potencial e a genialidade de um produtor que é difícil definir em poucas palavras.

Knxwledge segue uma linha entre o Hip-Hop Experimental e o Lo-Fi, com influências dias de Madlib, J Dilla, Ohbliv entre outros aclamados produtores. Suas produções tem um teor voltado para o Soul, Jazz, Old School, com uma presença enorme de vocais e recortes de várias faixas diferentes, de forma que não pareça ser apenas um sample recortado, e sim uma criação original de diversas fontes diferentes, dando uma cara quase que única na cena, o que faz dele um cara especial, ou seja, uma grande junção de colagens.

Pra quem já curte as produções dele, fica fácil reconhecer algo do Knxwledge, com os kicks secos e quase imperceptíveis em algumas faixas, a caixa sempre marcada forte no reverb, os vocais extraídos de faixas do rap, Soul, e uma bateria que não conseguimos enquadrar num estilo único, porque ela foge muito dá marcação clássica do boombap, dando um ar mais futurista ao trampo. Comecem a ouvir os trampos antigos e reparam nisso tudo, vocês vão ver que ele tem uma identidade muito própria como produtor. Outros caras como Blu e Earl Sweatshirt já colaboraram com ele também.

Um exemplo foda desse mescla é a série “WrapTaypes” (que merece um post especial só para ela aqui no Rap Em Movimento), onde Knxwledge faz um remake de clássicos do hip-hop, tanto das batidas como dos clipes, usando a capelas dos sons originais e inserindo suas batidas. O resultado são coisas como essa:

50 Cent – Ya lifes on the line

Knxwledge. – knxbodilykesme. (WrapTaypes.Prt3)

A discografia é enorme, são muitos os bons trabalhos e fica difícil listar todos eles num único post, mas vou colocar abaixo os trampos que eu mais gosto e o link do BandCamp do cara pra quem se interessar.

De moto geral, vejo como um trabalho extremamente introspectivo. Claro que existem algumas excessões dentro de um universo tão amplo como a música, mas em sua essência são produções que fazem pensar, que trazem sensações diferentes para cada ouvinte, o tipo de música pra se ouvir com atenção e se deixar levar. Coisas dá genialidade do Knxwledge.

Parabéns, Knxwledge!