Álbuns que você precisa ouvir: The Miseducation of Lauryn Hill

Primeiro álbum solo de Lauryn Hill o The Miseducation of Lauryn Hill (1998) precisa muito estar na sua playlist.  Além de ter uma série de singles de sucesso e é o marco do estilo neo soul.

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Capa do álbum

Hill quebrou barreiras para artistas negras com esse trabalho. O disco estreou em primeiro lugar na Billboard nos Estados Unidos, vendeu mais 400 mil cópias na primeira semana, ultrapassando o recorde de Madonna, e desde então já vendeu mais de 17 milhões de unidades no mundo inteiro.

Além de abrir as portas da indústria para as mulheres, Lauryn, abriu para o hip hop. O álbum The Miseducation foi o primeiro disco de hip hop a vencer o Grammy de Álbum do Ano.

Em 1999, ela foi indicada para 10 Grammys e ganhou 5 deles, na época um recorde para uma mulher. Suas cinco estatuetas criaram uma audiência mais ampla para o hip-hop e ajudaram o gênero a conquistar o mainstream.

The Miseducation é conhecido, principalmente pelos vários singles como; o hino Doo Wop (That Thing), Everything is Everything, To Zion, e Ex-Factor (choremos nessa música). Em 1999, o álbum ganhou dez nomeações, isso mesmo 10 nomeações, para o 41º Grammy Awards, ganhando cinco, fazendo de Hill a primeira mulher a receber esse montante em uma única noite.

Antes mesmo de Adele e Beyoncé fazer aquela foto clássica ostentando Grammy’s a diva da Lauryn Hill abriu o caminho!

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Diva, né mores ❤

O álbum também é o marco da incorporação de elementos musicais do hip hop com soul, música gospel e reggae. Esse trabalho ajudou posteriormente a definir o estilo neo-soul. O álbum está na lista dos 200 álbuns definitivos do Rock and Roll Hall of Fame.

Vida pessoal

O álbum foi gravado nos estúdios Tuff Gong de Bob Marley, em Kingston na Jamaica. Foi a época em que Hill estava envolvida com Rohan Marley, filho de Bob. A Mc estava grávida na época da criação desta obra prima.

O álbum reflete muito esse momento da vida pessoal da artista. Na época a cantora passava por tensões dentro do Fugees também. A música “The Zion”, foi uma homenagem ao seu filho, Zion, que estava na barriga na época da concepção do álbum e foi um desabafo de uma mulher que se encontrava no conflito de largar a carreira e cuidar do filho ou dar continuidade.

“Look at your career,” they said
“Lauryn baby use your head.”
But instead I chose to use my heart

 Além disso, Hill foi uma das pioneiras a colocar letras de consciência social em sua música e falar sobre sua vida. A música Doo Wop fala sobre objetividade sexual. E sobre a liberdade também. No último refrão ela fala;

“Girls you know you’d better, watch out
[Tradução]Garotas é melhor você ficarem ligadas
Some guys, some guys are only about (About!)
[Tradução]Alguns garotos só estão atrás daquilo
That thing, that thing, that thing!”

Guys you know you’d better, watch out
[Tradução]Garotos é melhor você ficarem ligadas
Some girls, some girls are only, about
[Tradução]Algumas garotas só estão atrás daquilo
That thing, that thing, that thing!

hill

E na música Ex Factor fala sobre o fracasso nos relacionamentos.

Nome e capa do álbum 

O nome do álbum já mostra o que podemos esperar do conteúdo. O The Miseducation, que traduzindo ao pé da letra quer dizer “A Educação errada de Lauryn Hill”. A capa é como se fosse uma carteira antiga de escola com o rosto dela talhado.

A introdução do álbum é uma chamada em sala de aula. Todos esses elementos dão o indício que a titia Lauryn vai te ensinar tudo ao contrário do que você aprendeu.

Infelizmente, seu primeiro lançamento em estúdio também seria o último. Ainda aguardamos a volta de Lauryn Hill ou até mesmo a do Fugeens né!

Ouça aqui o álbum completo:

Raphão Alaafin lança clipe da música Segundamente RapGame

A faixa faz parte da MixTape “Camelando e Sampleando” de Rodrigues BOMA vs Raphão Alaafin. A faixa vem carregada de ironias, sarcasmo e muita crítica sobre o termo RapGame. O Mc brinca fazendo um paralelo entre o mundo dos games e o ambiente do Rap. Com direção de Tarcio Silva o projeto é fruto de uma parceria com o selo independente Ponarru.

A Mixtape conta com oito produções de BOMA, que vem desde a “Próximo Filme de Zózimo Bulbul” de 2009, até “Segundamente RapGame” de 2016. O iconoclasta dos beats, como é chamado, trouxe sua linha Underground com referências inusitadas, como Naruto, Bastardos Inglórios, Paulo Ricardo e até frases de Tim Maia ironizando o Hip Hop em entrevista.

Raphão Alaafin mesclou rimas nunca lançadas nesse período, como “Telefone”, que agora conta com um refrão virtuoso de JS, e a conhecida Oprah de 2010 que nunca foi lançada oficialmente, mas muito ouvida. “Eu sou Assim” contou com a parceria de Dikampana no Remix e apesar de ficar em estúdio apenas um mês para realizar este projeto, nasceram faixas escritas na semana de produção, como o cypher “Antes de Elvis ser Presley, Chuck já era Berry” com Maique Maia, Luiz Preto e Gegë, a música “Eis a Exceção” com RG do QI e JS, e como de costume uma escrita quente de estúdio, a novíssima “Segundamente RapGame”.

O Mc que fez participação na icônica faixa Mandume do Emicida , com um dos versos mais pesados,teve seu álbum, Eu Gosto, mencionado pelo portal It Pop como um dos melhores de 2016.

Confira o clipe:

5 Melhores Álbuns de 2016 – Por Marcola

5 Melhores Álbuns de 2016 – Por Marcola

2016 foi um ano de realizações para o RAP. Tivemos uma série de lançamentos, descobertas, tretas saudáveis (ou não), quebras de paradigmas e, o melhor, muita música foda!

Foi um ano importante para a consolidação da cena que andava um tanto quanto parada, com fórmulas prontas e defasadas, com algumas poucas revelações.

E, ao meu ver, essa foi o principal ponto positivo para o movimento neste ano e, me baseando nisso, deixo abaixo a lista dos 5 melhores trampos do ano, em minha opinião.

 

BK – Castelos ¨& Ruínas

bk

O BK já andava mostrando um bom trabalho desde 2015, com o Nectar Gang, grupo que despontou na cena do RAP carioca.

Em Março de 2016 o BK a.k.a Flow Zidane lançou seu álbum de estreia, intitulado “Castelos & Ruínas”. Com uma temática obscura, totalmente auto-biografico e bastante analítico sobre a vida do Mc, é uma espécie de crise existencial de forma de poesia. Bk trouxe uma roupagem nova pra cena, utilizando uma enorme quantidade de metáforas e referências que vão desde mitologia grega até banalidades da vida no Rio de Janeiro e suas vivências, amores, planos, decepções e conquistas. Tudo isso me impressionou muito, pois se assemelha a muitos grupos e Mc’s do underground nacional dos anos 2000, dando ula aula de lírica, conhecimento que está além do RAP, fazendo jus ao apelido de “Flow Zidane”; Destaque para a música “Não me espere”, que tem uma grande carga das inúmeras referências citadas acima.

Vale muito a pena conferir, porém, dificilmente vocês não ouviram falar desse álbum que, pra mim, levou o título de melhor trabalho do ano e que vocês podem ouvir aqui.

 

D.D.H – Direto do Hospício

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Eu tive a honra de conhecer o D.D.H por uma amiga de Salvador, que havia me apresentado o som do BACO, antes do boom da faixa “Sulicidio”, que foi a grande responsável por uma das melhores coisas do ano, que foi a virada dos holofotes para o Nordeste.

D.D.H é uma dupla formada por Mobb e Baco Exu do Blues, e que nesse ano lançou o EP “Direto do Hospício”, compilando algumas faixas lançadas ao longo do ano.

É um EP dificil de digerir, visto a brutalidade e banalidade com a qual lidam com temas como a morte, violência, racismo, entre outros problemas que o povo pobre tanto sofre. Usando uma linguagem nas poesias de escarnio, muitas referências filosóficas e uma pitada grande de sarcasmo, o EP apavora nas produções, nas letras cheios de jabs na cara da sociedade e dos problemas sociais. Mas, depois de entender a linguagem e a intenção dos caras com suas letras, se torna uma obra prima para os ouvidos. D.D.H literalmente vem do hospício de Salvador para expor para todos a vida que passa em vão sob nossos olhos.

O grande destaque do EP é a faixa “Santíssima Trindade da Sujeira”, com participação do Beirando Teto, que é uma viagem psicodélica entre a espiritualidade, o álcool, a cena defasada do RAP, a desgraça do mundo e. claro, a cidade de todos os santos. Tudo com uma carga enorme de agressividade. Mas, para entender exatamente toda essa temática e esse universo paralelo do som dos caras, vocês PRECISAM ouvi-lo.

 

Isaiah Rashad – The sun’s tirade

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Sou fã do Isaiah a pouco tempo, desde quando conheci o grande “Pieces of a Kid“.

O rapper associado da TDE, que tem apenas 25 anos, lançou esse ano o álbum “The sun’s tirade”, um álbum resumidamente obscuro. Com batidas experimentais, e sempre muito boas, como em todos os seus trabalhos, o trabalho veio carregado de rimas sobre seus problemas psicológicos, vivências e problemas enfrentados pelo jovem Mc durante a vida. Tema esse que, infelizmente, tem sido recorrente, mas pelo lado positivo, sido exposto por quem o enfrenta. ´Problemas com o álcool e drogas seguem a trilha desse trabalho pesado, e muito lindo. É uma grande auto-reflexão do Isaiah sobre seus monstros internos.

Destaque para a faixa “Wat’s wrong” com participação do Kendrick Lamar, que trás uma reflexão sobre como corremos em círculos na vida, os pensamentos que nos limitam, o que queremos alcançar e os fracassos, ansiedade, preocupações, entre outras formas de limitação que todos nos enfrentamos, retratados nessa linda faixa.

Vocês podem conferir o álbum completo aqui.

 

J Dilla – The Diary

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Falar de J Dilla é falar de um membro do panteão de maiores produtores da história do RAP. James Yancey dispensa apresentações!

Porém, muitos o conhecem apenas como produto, ignorando o lado MC do lendário produtor de Detroit.

“The Diary” foi lançado em 2016, 10 anos após a morte do grande Dilla, e, diferente dos demais trabalhos póstumos, este foi especial pois além da produção das batidas, ele vem mostrando toda a habilidade como MC que possuia. Não só pela qualidade do trabalho e do Dilla, este álbum está na lista também pela felicidade que sinto em ver que o legado de Jay Dee será eterno, e a cada novo material lançado, ficamos felizes por ter a presença musical dele entre nós. Além do mais, este é o último material da série de trabalhos que Dilla havia deixado pronto antes de sua morte. O trabalho foi produzido entre 2001 e 2002, e conta com instrumentais de Dilla, Madlib,  Pete Rock e vocais de Snoop Dogg, entre outros produtores e Mcs que fecham esse time de peso.

Destaque para a faixa “Fuck the police” onde Dilla mostra todo seu “amor” pelos “homens da lei”, hehehe. Vocês podem conferir o álbum aqui.

 

Makalister – A Terça Parte da Noite

maka

Conheci o Makalister através da Déborah, também colaboradora do Rap Em Movimento.

Na época, ele havia acabado de lançar a “Laura Miller Mixtape”, em meados de Setembro desse ano. A mixtape, que alias eu diz um review aqui, dispensa comentários por toda sua qualidade. Depois de ouvi-la, fui atrás dos trabalhos anteriores do MC Catarinense, até chegar no EP “A Terça Parte da Noite”, lançado em Março de 2016.

Poesia é a palavra que resume o EP como um todo. Makalister usa de uma forma absurda e quase extraterrestre referências externas, que vão desde o cinema, sua marca registrada, aé livros, literatura, futebol, entre outras muitas formas de arte que o Mc absorve e fala com muita propriedade. Composta por 4 faixas, todas produzidas pelo próprio Maka, é uma viagem entre amores, rolês e vivências pela sua cidade, noites nos bares, filmes independentes e jogos do Figueirense. É daqueles trabalhos que você fica imerso na narrativa, sendo necessário, a cada verso, usar o buscador para entender e compreender as referências usadas, pois Makalister tem a capacidade de. em cada linha, usar uma quantidade enorme de metáforas ligadas a vários temas, o que torna o trabalho muito rico em questão de cultura e arte.

Destaque para a faixa “A vida e suas voltas redondas”, que é minha favorita por N motivos. Porém, acredito ser a faixa onde está mais explicito toda essa carga de referênxcia que eu reafirmo nessa analisa, como nos versos onde ele faz uma analogia genial entre futebol, sua infância e alguns filmes dos quais ele usou como tema.

Vocês podem conferir o EP aqui.

 

 

 

 

 

 

 

Yasiin Bey, A.K.A Mos Def, anuncia novo álbum

Na véspera de seu show no Brasil (2/12), que seria a turnê de despedida, Yasiin Bey, anteriormente conhecido como Mos Def, anuncia um novo álbum.  Dezembro 99th está programada para ser lançado no dia 9 de dezembro.

O álbum de nove faixa é uma colaboração com o produtor Ferrari Sheppard, de acordo com a nota que foi divulgada na imprensa, o álbum foi gravado na África do Sul.

Além de dezembro 99th , Bey anunciou recentemente que iria realizar encerrar sua carreira em dezembro nos EUA . Esses shows, agendada para de New York City Apollo Theater em 21 de dezembro e Washington DC do Concert Hall Kennedy Center de 31 de dezembro a 02 de janeiro, incidirá sobre catálogo Mos Def de Bey. Os shows também irão incluir material novo e surpreender os convidados especiais.

No início deste mês, Bey finalmente foi concedida a permissão para deixar a África do Sul na condição de que ele não voltar a seguir sua prisão janeiro por tentar viajar em um “passaporte mundo.”

Após as apresentações, Bey vai se mudar para a África para se concentrar em um artes, cultura e estilo de vida coletivo chamado um país chamado Terra.

Dezembro 99th  inclui o lançadas anteriormente ” Seaside Panic Room “, ” Local Time “, e “N.A.W. “Leia a lista de faixas abaixo.

Dezembro 99th  lista de faixas:

  1. “N.A.W.”
  2. “Blade In The Pocket”
  3. “SPESH”
  4. “Local Time”
  5. “Tall Sleeves”
  6. “Seaside Panic Room”
  7. “Shadow In the Dark”
  8. “It Goes”
  9. “Special Dedication”

 

Fontes: http://www.spin.com/2016/11/yasiin-bey-december-99th-album/

http://www.rollingstone.com/music/news/yasiin-beys-december-99th-project-announces-debut-lp-w452490

 

 

A história por trás da capa do álbum “Madvillainy”(2004), pelo Diretor de Arte Jeff Jank.

[Matéria originalmente publicada no site egotrip, que vocês podem conferir aqui

O antigo diretor de arte da Stones Throw Records, Jank – por meio de sua maravilhosa arte de capas e discos e singles, como as de Madlib (e sua miríade de encarnações, incluindo Quasimoto e Yesterday’s New Quintet), J Dilla , Dudley Perkins – exibiu tanto talento para criatividade em homenagem ao design vintage. Estimulado por uma fotografia impressionante feita pelo fotógrafo Eric Coleman, o design da capa do álbum de Jeff para Madlib MF Doom – collab inaugural do clássico de Madvillain Madvillany, é um exemplo fundamental de algo que preenche realmente muito bem ambas as categorias. Nós recentemente nos encontramos com o homem conhecido alternadamente como Funkaho para discutir a realização do LP e sua capa- um processo que envolveu troca, bongs, um abrigo anti-bombas e oportunidades para talvez assustar as crianças

 

madvillian_cover

Qual foi a inspiração original para a capa do álbum Madvillainy e como evoluiu o conceito?

Jeff Jank: Naquela época, em 2003, Doom realmente não tinha uma imagem pública. Cabeças do hip-hop sabiam que ele usava uma máscara, que ele fez parte do KMD – Kausing Much Damage, um grupo de RAP criado em 1988, mas ele realmente era um mistério. Então, eu realmente queria ter uma foto dele na capa, só para fazer uma imagem definitiva do Doom. Especificamente eu estava pensando em uma foto desse homem, que por acaso usava uma máscara por algum motivo, ao contrário de “uma foto de uma máscara”. Eu não sei se a distinção ocorreria a qualquer outra pessoa, mas para mim era um grande negócio. Quero dizer, quem diabos anda com uma máscara de metal, qual é a história dele?

Eric Coleman veio com câmera e filmes e só encontrei ele um dia. Eu não me lembro se tivemos uma foto planejada ou se ele apareceu no dia certo. Doom e Madlib eram elusivos com fotos, por isso esta foi uma oportunidade. Nós os gravamos em nossa casa, onde o álbum estava sendo gravado.

Eu estava pensando na capa de “King Crimson’s In the Court of the Crimson King quando eu estava trabalhando nesta foto. Eu usei para verificar esse cara vermelho gritando no álbum de King Crimson na coleção do vinil do meu pai quando eu era uma pequena criança e ele realmente me sacudiu – Eu estava realmente assustado olhando através de seu vinil. Eu esperava que essa foto desse cara com uma máscara de metal fizesse o mesmo com algum outro garoto de 5 anos em algum lugar.

Outra coisa – apenas um pouco de brincadeira – foi que a foto em preto e branco [de Doom] me lembrou de alguma forma a primeira capa do álbum Madonna, apenas ela em preto e branco – ela disse “MADONNA” “O” era laranja. Eu vi as duas fotos lado a lado e ri como se fosse alguma versão rap de Beauty & the Beast. Então eu coloquei um pequeno pedaço de laranja no canto, em parte porque precisava de algo distintivo, e em parte para combinar com a cor de Madonna.

madonna

Descreva como era o ambiente de trabalho na Stones Throw na época. Vocês estavam todos vivendo juntos na mesma casa, certo?

Jeff Jank: Sim, estávamos todos nesta casa em East, Los Angeles, e eu ainda vivo lá hoje sozinho. [Peanut Butter] Wolf tinha este tipo de rótulo de DJ do quarto hip-hop que ele tinha começado alguns anos antes, e decidiu se mudar para L.A. para trabalhar mais perto com Madlib. Egon e eu nos juntamos ao mesmo tempo. Foram os três, sem planos e sem dinheiro. Madlib mudou-se para lá, primeiro montou uma loja na sala de estar, e depois entrou no abrigo anti-bombas da era dos anos 50, com paredes de concreto de 18 polegadas. É como se fosse feito sob encomenda para ele – ele fez música o dia todo em uma programação consistente que realmente me impressionou – e o mais impressionante eram  suas três pausas por dia, que eram para fumar gigantescos montes de maconha;

Nós todos apenas mergulhamos nisso como um projeto vivendo nele 24/7. Depois de fazer isso por um ano ou dois, um dia Madlib disse que gostaria de trabalhar com Doom. Egon conhecia um cara que sabia quem conhecia Doom, e a próxima coisa que você sabia que Doom também estava fazendo: “Fazer bongs no telhado na Costa Oeste”, como ele diz na primeira faixa que ele escreveu para o álbum. Eu realmente não percebi o que era um momento idílico, até que as coisas ficaram mais complicadas alguns anos depois.

O que você lembra sobre o processo de Madlib e Doom trabalhando juntos, e como eles moldaram suas próprias idéias de como apresentar a música?

Jeff Jank: A parte mais importante de seu processo é simplesmente que Doom entendeu Madlib. Ele entendeu de onde ele estava vindo com a música, como isso se relacionava com os discos que eles ouviram dos anos 60-90, e a inclinação de Madlib para trabalhar sozinho em privacidade. Doom era tudo para ele.

Eu freqüentemente buscava Doom em um hotel cada dia. Chegamos a uma loja de bebidas às 10h. Escrevia na varanda dos fundos, Madlib fazendo a coisa lá embaixo no abrigo de bombas. Eu não sei dizer se isso influenciou a obra de arte. Na maioria das vezes eu estava apenas preocupado com o álbum ficar terminado. Eu também tive essa confusão com Doom onde fizemos um comércio: eu fiz uma pintura em troca dele colocando algumas palavras-chave desafiadoras nas letras. Essas palavras permanecerão secretas, mas estou feliz em dizer que ele colocou para fora um par de meus personagens de desenho animado Hookie & Baba na faixa lounge “Bistro”.

Em algum lugar ao longo do caminho, a primeira demo “Madvillainy” vazou na web, e realmente azedou o processo para eles. O processo de levá-los de volta ao trabalho levou a maior parte de 2003, e as últimas partes do álbum foram muito mais difícil do que tudo. No final quase todo mundo estava frustrado, e eu acabei sendo o último cara no estúdio fazendo uma pequena edição aqui e ali, o que eu nunca tinha feito antes no Stones Throw. Eu dirigi para casa pensando, esta é uma ótima música, um grande beatmaker, um grande MC, e eu tenho um grito para os meus personagens de desenhos animados, a vida é muito boa.

Apesar disso, fiquei realmente surpreso com o amor que o álbum teve. Até hoje eu vejo novas pessoas descobrindo e sendo inspirado por esse disco e estou realmente feliz por ter feito parte dele. (Isso até torna o processo multi-ano do mítico segundo álbum algo suportável.)

Embora eu soubesse que Doom fez parte do KMD, eu não sabia até um pouco mais tarde que ele tinha desenhado a capa de Black Bastards ou tinha algo a ver com artes visuais. Conversamos mais sobre isso mais tarde, mas no momento tudo que eu sabia era que ele estava sendo absolutamente contra o uso de seu “rosto” na capa. Quando ele veio para ve-la um dia, seu cara Big Ben Klingon simplesmente estava com ele. Eu tive sorte. Doom gemeu quando viu a foto, mas Ben imediatamente percebeu. Ele estava uivando: “Olhe para esse cara, qual é a história dele ?! Isso é perfeito!” Ben agradeceu pela capa.

De Manaus para o mundo: Victor Xamã

Entrevista via Mova-C

“… Mistério sempre há de pintar por aí…”, já dizia Bethânia e Gal naquele som lindo do Doces Bárbaros. Mas não é que pintou mesmo? Entre tons esotéricos, xamanismo urbano, poesia de rua e beats intensos, está Victor Garcia, 21 anos, mais conhecido como Victor Xamã, diretamente de Manaus, Amazonas.

De dentro para fora, o MC demonstra a forte admiração pelo Xamanismo e Esoterismo. Em 2015, durante a elaboração do álbum “Janela” – seu primeiro Ep solo que também foi lançado no mesmo ano, escute aqui – leu o livro “Xamã Urbano” de Serge Kahili King e se identificou ainda mais com o nome e com os seus significados. “Além de que o nome Xamã representa parcialmente de onde eu vim e representa a minha forma de fazer música, buscando tranquilizar ou questionar com sentimentos sinceros”, explica Victor.

Aos 12 anos começou a ouvir rap, com 14 já explorava o seu talento construindo rimas. Xamã explica que após Davi Dura, seu amigo de infância, ter lhe apresentado à música “Mr. Niterói” de Black Alien, ficou hipnotizado com a construção lírica e rítmica do som. Depois disso, não parou mais.

Observando a cena do hip hop, em especial o rap no Brasil, em grande parte da sua história a visibilidade dos trabalhos eram extremamente menores em relação aos outros gêneros, isso quando não eram representados de uma forma negativa pela mídia. Com os passar dos anos, a chegada da internet veio quebrando barreiras em relação à produção e divulgação de trabalhos independentes da cena.

Hoje é possível ver que isso mudou, porém, ainda assim o eixo Rio de Janeiro – São Paulo é o que concentra boa parte da divulgação e eventos que trazem nomes de grandes e novos grupos de rap no Brasil. Muitas vezes centralizando a indústria deste gênero na região sudeste do país.

Ao ser questionado sobre como é fazer rap em Manaus e sobre a visibilidade dos trabalhos em relação a outros lugares no Brasil, Victor Xamã comenta que é parecido com qualquer outro estado nos dias atuais, mas ressalta que “a cena é em menor proporção e você carrega uma responsabilidade muito grande de representar essa bandeira. Hoje em dia há uma infinidade de grupos e pessoas que trabalham pelo Hip hop na cidade de Manaus e no Norte como um todo, porém isso não tem muita visibilidade no Sudeste e em outros estados mais afastados. Infelizmente, ainda não temos a estrutura que merecíamos ter. Eu tive a sorte ou competência de fazer isso acontecer e estou trabalhando em parceira com o meu grupo Qua$imorto pra elevar ainda mais essa visibilidade.”.

Em 2015, o Spotify lançou o Musical Map: Cities of the World, um mapa interativo que apresenta quais músicas as pessoas escutam em diferentes cidades do mundo. EsteFB_IMG_1471882188154 guia trouxe algumas curiosidades e entre elas o rap é o gênero em que mais apareceu nas playslists dos usuários, independente do idioma e da localidade conforme o site  Tribuna Bahia (confira a matéria aqui).

No Brasil a quantidade de ouvintes é crescente e segundo Victor, a busca por trabalhos inovadores está aumentando o interesse por ouvir novos sotaques e combinações. O
público quer ser surpreendido. Para ele, hoje não importa muito o lugar que veio e sim o que faz e como faz, mas ainda é inquestionável que falta mais apoio e investimento para potencializar o cenário do rap fora do Rio de Janeiro e São Paulo.

 Álbum “Janela” e o grupo Qua$imorto

Confira entrevista com Victor Xamã sobre a construção e produção do seu primeiro trabalho solo que trás nove músicas e entre elas “Eu chorei nas margens do Rio Negro”, “Essa noite eu vou me embriagar com verdade” que conta com a participação de Makasliter e “Dual II” com Qua$imorto e Dalsin. Abaixo, ele também fala sobre o seu grupo, quando surgiu, quem faz parte e tudo mais. Veja:

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Trecho do clipe “Eu chorei nas margens do Rio Negro”, primeira música do Ep “Janela”.

O seu primeiro trabalho solo foi o EP “Janela”, que contou com a produção do Barba Negra, além das participações do Makalister e do Dalsin. Como foi o processo de construção do álbum?

O disco foi escrito em Salvador, gravado em Manaus e lançado em São Paulo. O processo de construção e criação foi algo pouco planejado sem muita pretensão, porém feito com muito carinho e dedicação por mim e por toda a Qua$imorto, ressaltando o Fernando Rabelo (Barba negra) que foi uma peça mais que fundamental na captação e mixagem das músicas em um curto período. As participações foi algo que fluiu de uma maneira muito simples e dando uma acrescentada extraordinária na obra. 

Quanto tempo levou todo processo de produção?

Os instrumentais feitos por mim não posso dizer com exatidão quando nasceram, porém me recordo que em maio de 2015 senti vontade de relatar o que estava acontecendo e concretizar aqueles sentimentos em uma obra física.

Por que “Janela”?

O álbum nasceu quando estava morando em Salvador, longe do conveniente e preso aos vínculos que deixava na minha cidade, Manaus.  A “Janela” significa meu conflito e a minha cura, significa a saudade que se transformou em observação. Parecia que tudo que me cercava era mais visível, a partir daquele momento eu senti a vida em alguns acontecimentos bem simples, observava o mundo pela janela do segundo andar, aprendia que deveria criar asas e não raízes e que aquele era o meu momento.

As suas letras são carregadas de referências, a tua lírica e flow também são bem ímpares. Quais foram as maiores inspirações para construção do EP?  Como foi esse processo?

No momento de escrita do álbum estava ouvindo muito MPB e lendo livros de cunho esotérico, acho que isso ficou bastante claro na atmosfera e construção de algumas músicas, tentei fazer as músicas diferentes, agradáveis e simples.

Se pudesse resumir, o que você queria ressaltar nas composições?
A saudade, a persistência, desejos e prioridades em uma balança gigante e a liberdade poética e lírica.

O seu primeiro contato com música foi com o Rap? Quais músicas inspiram você?

Meu primeiro contato com a música foi o rock progressivo com conhecidos e familiares. Os sons que me expiram bastante são: Jorge ben – Errare Humanum EstPink Floyd – Shine on Crazy DiamondSubsolo – Ninguém Ama os NáufragosSilk Rhodes – PainsXará – Hoje eu sei … São muitos.

Você tem planos para mais trabalhos solos? 

No momento estou focado na construção do disco da Qua$imorto, “Trajados de Preto na Cidade Calorenta e Abafada”. Porém, esse ano ainda sairá alguns singles inéditos com clipes do meu trabalho solo e tenho bastante vontade de trabalhar em um novo álbum.  

Como e quando surgiu a Qua$imorto ?

Qua$imorto foi um amadurecimento de ideias minhas e do Fernando Rabelo que cominou em um grupo de rap com cinco integrantes – Victor Xamã, Fernando Barba Negra, Luiz Caqui, João O Alquimista & Dj Maquinado – . Nossa forma de escrita convida a introspecção mas não se limita a rótulos ou estilos específicos. Qua$imorto surgiu há dois anos e meio, como a continuação do nosso antigo grupo, denominado P8crew. Percebemos que deveríamos amadurecer as ideias e fazer algo com uma nova cara.

O que está escutando atualmente:

Timber Timbre – Hot Dreams

Tim Maia – Racional

Obs: Não deixem de ouvir a Qua$imorto!

Quer conhecer mais sobre o trabalho de Victor Xamã e da Qua$imorto? Acompanhe aqui:

Facebook, YouTube – Victor Xamã

Facebook, YouTube – Qua$imorto

Criolo lança a regravação do álbum Ainda Há Tempo

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Em 2006, num cenário instável do rap paulistano, surgia o “Ainda Há Tempo”, primeiro disco do ainda Criolo Doido. Para comemorar os dez anos do disco, desde março, o rapper está em turnê que revisita o registro, que agora também ganhou uma nova edição.

Ganjaman reuniu grandes produtores brasileiros contemporâneos para reinterpretar o clássico underground. Dividem a lista de créditos nomes consagrados, de grife internacional, como Tropkillaz, artistas em evidência como Papatinho, Nave e Sala 70, e novas apostas como Deryck Cabrera. Sob a batuta de Ganja e do coprodutor Marcelo Cabral, o time cava fundo para transformar pedras brutas em joias perfeitamente lapidadas.

A regravação de “Ainda Há Tempo” (Oloko Records) é um marco por vários motivos A variedade de estilos dos produtores garante interpretações notavelmente distintas, o que poderia transformar o disco em pastiche. O toque de Ganjaman e Cabral, no entanto, opera pequenos ajustes e tece um fio condutor que harmoniza o conjunto. O resultado é enriquecedor.

No final, esse pequeno sumário de 10 anos de rap, Brasil e mundo pode deixar um gosto amargo, uma sensação de que nada mudou substancialmente. De fato, algumas coisas pioraram. Por outro lado, é admirável que um disco composto sem pretensões de grandeza, gestado em rodas de moleques de periferia, numa época de descrédito de um gênero todo, tenha sido o embrião de uma geração que conquistou um espaço sólido e grandioso na música brasileira. “Ainda Há Tempo” era cheio de preocupação e ceticismo, mas também transbordava a esperança de um compositor e de uma comunidade que não queriam sucumbir. “Não quero ver você triste assim, não. Que a minha música possa te levar amor”, Criolo cantava em 2006. Em 2016, ainda há tempo para ouvi-lo.

O lançamento digital do “Ainda Há Tempo” aconteceu no dia 6 de maio e você pode ouvi-lo direto do site: http://www.criolo.net/aindahatempo/