O Rap e o mundo precisa do Sabotage

É muito suspeito pra qualquer um que goste de Rap (du bom, tipo aqueles do Rappin Hood), falar do Sabotage e seu disco póstumo. Pois ele – infelizmente – faleceu ainda em um nível muito elevado de lírica, e das mais avançadas que já se viu, então era óbvio que esse disco seria foda.

A ideologia não morre.

Essa obra só mostra que o Sabotage foi o que aconteceu de melhor no Rap nacional, pois fez todo mundo lembrar que o que tem rolado de “inovador” na cena em tempos recentes, o maestro do Canão já fazia de forma muito mais avançada. Tanto o flow quanto a lírica, a visão de mundo… Tudo que a gente vê, hoje na cena (de bom), foi evoluído pelo Sabota. Por essas e outras que o cenário precisava dele hoje, pois só ele poderia dizer que os outros MC’s copiam seu flow, sendo assim, ele saberia como direcionar essa geração do Rap que só quer mostrar o tênis novo no Snapchat.

Os que apavora, apavorados serão na quebrada.

Ser malandro não é marcação jão, se joga!

Se na questão musical ele foi atemporal, no quesito social não seria diferente, o disco tem uma mensagem geral muito importante, com frases que são comuns dentro da poesia do Rap, mas a forma como o Sabotage construiu essas letras tem um impacto diferente e um entendimento mais específico.

Quem não pode errar sou eu, que se foda o Zé Povinho.

Vi e ouvi algumas pessoas dizendo que se esse disco, com letras de 13 anos atrás é atual, é porque nada no Brasil mudou, eu acredito que pensar dessa forma é desmerecer a obra, pois artistas geniais conseguem fazer composições atemporais que podem durar mais de 100 anos, e Sabotage é um desses artistas, suas músicas vão (e devem) continuar atuais, pois sua mensagem não pode ser esquecida jamais.

Obs: Mais um motivo pra entender o quão grande foi esse rapper:

Para ouvir o disco póstumo do Sabotage, é só clicar aqui ou aqui.

Luke Cage é Gold

Sabe aquelas produções americanas que carregam toda uma mística Hip-Hop por trás? Com brigas entre gangues, a clássica barbearia, jovens na linha tênue entre a bola de basquete e uma 9mm, um homem no meio de tudo tentando fazer a coisa certa e a trilha sonora no estilo Golden Era?

A série Luke Cage da Netflix tem tudo isso.

A série já conquista ao mostrar a barbearia do Pop, que é um ex-criminoso que resolveu seguir a vida cortando cabelos e tentando dar uma chance pra que jovens não entrem na vida do crime. Sempre com um discurso ao estilo Spyke Lee, pede o tempo inteiro pra que façam a coisa certa, e nem palavrões podem ser ditos na frente dele.

Na trama também podemos ver o “Boca de Algodão“, um gângster bem ao estilo Frank Lucas, que tem uma boate de jazz e música soul (e com um pôster do Notorious B.I.G no escritório) financiada pela sua prima que é vereadora em Nova Iorque. O que chama a atenção são as conversas entre os dois, aonde um defende que tudo deve ser feito pelo orgulho do povo negro, enquanto um defende que tudo aquilo não passa de negros na busca pelo poder. O “Boca de Algodão” é amigo de juventude de Pop, e os dois são patrões de Luke.

O seriado ainda tem uma policial criada no bairro do Harlem (onde a série é ambientada), cheia de si e que tenta descobrir o que está por trás dos assassinatos recentes no bairro.
A história é tão boa que você até esquece que é sobre um super-herói da Marvel, pois isso acaba passando como um detalhe sutil, claro que existem as cenas com efeitos especiais, mas nada exagerado.

Bem, se tudo isso não é o suficiente pra fazer você gostar da série, pelo menos há uma cena de invasão do Luke Cage ao som de Bring Da Ruckus do Wu-Tang Clan.

Soco no ar?

Esses dias o cenário do Rap nacional levou uma chacoalhada daquelas bem necessárias. Verdade seja dita, os Ritmos e Poesias lançados “na rua” estavam começando a cair no clichê.
Estão chovendo lançamentos de sons que parecem bons, mas quando você escuta com mais atenção, são só rimas sem fundamento, e o pior, sempre sobre os mesmos assuntos. Ainda bem que alguém resolveu cutucar essa cena triste.

Mas aí entra aquela outra questão, se sobra MC por aí que se diz o melhor, o mais copiado e afins, porque não mostrar que merece tais títulos. Já que é tão simples lançar música nova a cada duas semanas, porque não deixar claro quem é quem?
E por essas e outras que o Rap acaba entrando numa via perigosa, naquele risco de ficar morno, na mesmice, onde ninguém aceita o desafio e as linhas perdem a profundidade, e quem gosta realmente de Ritmo e Poesia, precisa ficar meses pra ouvir um bom lançamento. Ou você acaba caindo na maldição do guardinha, daqueles que critica tudo que é novo, mas se nada que é novidade sai realmente com qualidade, fica bem difícil gostar.

Espero que as respostas venham, se for pra disputar nas rimas e com respeito, porque não? Quem ganha são os fãs da cultura, mas não aqueles que não sabem ler as entrelinhas, e sim quem pega no ar o que está nas 16 linhas.

Plástico

Texto inspirado na música Plástico, do rapper cearense Don L.

O menor ponteiro do relógio apontava para o oitavo número quando ela acordou. Levantando apressada pra se vestir, derrubou um copo cheio de líquido preto no chão, eu só tentava lembrar como aquilo tudo aconteceu.

A primeira lembrança que tive, era daquela mulher enxendo um copo de vodka como se fosse uma russa em pleno 9 de Maio. A partir daí consegui me lembrar (mais ou menos) do resto. Não foi a nossa primeira noite juntos, e nem foi a última, mas não conseguia enxergar previsão de quando fosse acontecer de novo. Então achei melhor deixar rolar.

A gente sempre liga um pro outro depois de uns anos longe, em uma noite sem muito o que fazer. É daí que ela pede pelo álcool e outra química, eu não me sinto bem em deixar acontecer esse tipo de coisa, mas negar depois da promessa de noite inteira de olho aberto e pulsação ao extremo, é quase impossível. Não faz bem pra nenhum dos dois, mas a primeira vez foi tão foda…

Fiquei nessa viagem matutina por uma hora, ela entra no banho e eu levanto, percebo a casa de cabeça pra baixo: a sandália dela dentro de uma embalagem de Doritos e logo ao lado, a garrafa vazia do meu Chacai, não me lembro de beber, mas me recordo do sabor dele na boca dela. Devia ser Depois das 3 quando tudo isso já tava no chão e ela na cama entregue como se o amanhã não existisse mais.

Mas o amanhã de ontem existe, e é nele que ela se despede com um “até logo”, sincero, pois ela sabe que a noite de ontem acabou, mas recicla e volta em outra.

Ouça a música Plástico.

Álbuns que você precisa ouvir: GoodFellaz

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De uns tempos pra cá eu comecei a reparar que a maioria dos novos artistas de Rap estão fazendo sons mais comerciais, com um foco maior na questão “chiclete” que uma canção pode oferecer. Não acredito que isso seja algo ruim, muito pelo contrário, acredito que é de extrema importância que músicas de Rap fiquem fixas na cabeça do público, mas também não devem se esquecer da lírica de qualidade, até porque chiclete toda hora enjoa e não alimenta.

GoodFellaz mostra o alto nível do grupo 5 Pra 1 pra fazer música. É nítido nas canções como eles conseguem se equilibrar com maestria entre poesia e produção, aonde uma coisa não tira o foco da outra.

O disco não bate o tempo inteiro em uma tecla, ele alterna de forma leve de um tema para outro, e todos de certa forma tem uma ligação, com mensagens de alto estima e afirmação o grupo fez canções para refletir em qualquer lugar e em qualquer situação.

GoodFellaz é um trabalho muito bem feito que aparenta ser atemporal, vejo também como algo importante pro cenário atual do Rap, aonde boa parte dos Mc´s e grupos que surgem não conseguem colocar uma musicalidade mais brasileira em seus sons, seja na produção ou nas letras. Se até Kendrick Lamar gravou um samba

O disco tem ainda as participações de dois dos “pretos mais perigosos do Brasil”, Ice Blue avisando que é necessário coragem para amar alguém em Vários Lokinho  e KL Jay aconselha você à usar sua mente em O Golpe/Papo de Milhão. 

O disco foi lançado pela produtora Boogie Naipe, e tem esse nome em referência ao filme “GoodFellas” de Martin Scorsese. O grupo disse ter escolhido este nome pela questão de companheirismo e união.

Escute o disco GoodFellaz:

Bônus: recomendo também escutarem Kush & Garotas, EP lançada pelo grupo em 2014.

Porque eu vou torcer para o Kendrick Lamar no Grammy

O mundo está com o tanque cheio andando a 1000 km/h e não está com cara de que vai desacelerar. Isso é bom em relação à luta de minorias que vem ganhando com muito mais frequência do que anos atrás o seu espaço. Ainda há muito que ser feito, mas já tem sido alguma coisa.

Mas tem gentalha gente assustada com essa velocidade sem freio. São pessoas que são adeptas de pensamentos conservadores que já não tem espaço nos dias de hoje, ou pelo menos não deviam. Muitas delas definem os caminhos do entretenimento, o que tem gerado situações desagradáveis que batem de frente com a luta em favor da representatividade.

A Nicki Minaj ficou de fora das principais categorias do VMA 2015, mesmo tendo sido uma das artistas mais comentadas do ano. Nem mesmo o seu clipe Anaconda concorreu como melhor videoclipe. E diversos atores e atrizes negros fizeram excelentes trabalhos no cinema em Hollywood, nenhum foi indicado ao Oscar em 2016.

Nesse tempo onde fazem abaixo-assinado para Beyoncé pentear o cabelo de sua filha e policiais atiram em adolescentes (negros) desarmados e rendidos, é necessário que algo grandioso seja coroado para bater de frente e nada merece mais do que “To Pimp a Butterfly” de Kendrick Lamar.

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Kendrick mostrou mais uma vez sua genialidade fazendo um álbum 100% atual e atemporal. Em um contexto social ele mostra letras muito inteligentes, com mensagens de luta, volta por cima e autoconhecimento. O disco pode ser usado como uma aula de história, jogando na cara do Tio Sam toda a culpa da situação do seu povo, mostrando que o acontece hoje é consequência de uma sujeira que estava embaixo do tapete ha muito tempo.

O contexto artístico é um tapa na cara de quem faz Rap ruim, mas acha que é gênio, To Pimp a Butterfly entrou na lista de álbuns que todo MC iniciante precisa ouvir para aprender a fazer Hip-Hop da forma mais pura. As faixas estão lotadas de metáforas com muita complexidade e se escutadas na ordem tornam-se uma narração da carreira e vida pessoal de Kendrick. Sem contar o poema recitado em partes no final de algumas músicas, sendo revelado por completo na última canção e também pra quem ele está lendo o poema, simplesmente Tupac Shakur.

Enfim, Kendrick merece ganhar tudo no Grammy, pois lançou um disco que não foi feito nos padrões do mercado atual e ainda sim é genial, e mais o importante, foi lançado no momento mais propício. Um artista importante que vem fazendo um trabalho de extrema importância e merece ser coroado.

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O Grammy acontece no dia 15 de Fevereiro e Kendrick concorre nas categorias:

  • Álbum do Ano – “To Pimp a Butterfly”;
  • Canção do Ano – “Alright”;
  • Melhor perfomance pop em duo ou grupo – “Bad blood”, Taylor Swift com Kendrick Lamar;
  • Melhor gravação dance – “Never catch me,” Flying Lotus com Kendrick Lamar;
  • Melhor performance Rap – “Alright”;
  • Melhor colaboração Rap – “These walls,” com Bilal, Anna Wise & Thundercat;
  • Melhor canção Rap – “Alright”;
  • Melhor álbum de Rap – “To Pimp a Butterfly”;
  • Melhor Clipe – “Alright”;

Álbuns que você precisa ouvir: Até Que Enfim Gugu

A única coisa que se pode esperar desta mixtape é se surpreender. Gostar de Rap e ouvir Até Que Enfim Gugu pela primeira vez é como repensar sobre o que é qualidade lírica.

Já na primeira faixa ele mostra que não é só mais um dos “faladores contando histórias”, até porque Gil Scott Heron é como uma aula de Hip Hop, onde em homenagem ao poeta ele manifesta todo o seu amor à cultura, mostrando para aqueles que chegaram agora o que ela é, e acaba sendo – mesmo que sem querer – um aviso para aqueles que dizem que “Rap tem que ser feito desse, ou daquele jeito”.

Um ponto surpreendente no disco é a habilidade de Marcello em contar histórias, com citações cabíveis e personagens bem montados, seja narrando uma overdose falando sobre os últimos 15 minutos de vida do Jimi Hendrix na faixa Jimi, ou uma história de amor ao estilo Transcontinental FM em Deixa o Tempo Dizer, é muito fácil se ver preso dentro das histórias e se identificar em diversos pontos de cada uma delas.

Outra coisa feita com muita maestria no disco são as metáforas, se ouvir Kariri sem saber o nome da música você com certeza não vai imaginar que ele homenageia uma bebida, talvez ache que Evita e Miss Hollywood sejam lovesongs e pense o mesmo só lendo o nome da canção número 10.

Lançar um disco com mais de uma skit de mais ou menos 7 minutos não é pra qualquer um, só pra quem tem talento lírico de sobra. Se duvidar, arrisque ouvir Indireta sem querer pedir alguém em casamento logo em seguida, ou não respeitar ainda mais o Nordeste e nordestinos depois de escutar Herói.

O disco conta com diversas participações, que dão mais peso na qualidade: Drik Barbosa, Filiph Neo, Diego Primo, Lenda ZN, Garcez DL, Leitty Mc, Sergio Ribeiro e Flow Mc, Origame e Reticências nas faixas Bônus.

Enfim, um disco bem feito, que vale a pena ser ouvido várias vezes e você não terá surpresas só na primeira escuta.

 

Link do álbum: https://www.youtube.com/watch?v=ZETuZJgzsMI