Rotina

Texto inspirado na música Rotina, do rapper Emicida

​Quarta-feira de futebol quebra bem a semana quando afoga as agonia com vitória do seu time. Mas quando não é assim que decorre a noite, fica bom praquele rito esquisito com a TV no mute.

Dias que acabam mais tarde são bons para criar com o que se tinha em mente. Colocar em ordem as ideias que vieram de repente quando se ouve as conversas dos coletivos, nas moscada de final de rolê, ou lembrando dos sorrisos que a morena dá depois dos beijos roubados, por esses temas saem coisas que normalmente liberam serotonina pra quem escreve, mas pra quem lê, é só um texto.

Mas fica engraçado quando se percebe que toda mente pode ser tarantinesca nesses rituais de criação, lembrar do meme que te fez rir mais cedo pode te puxar para temas mais distintos que te deixam com feição séria, até que você cai em um devaneio denso ao lembrar que seus chegados sentem sua falta, e nenhum deles mora longe. Toda risada e densidade cai na ponta dá caneta.

Essas horas você consegue entender a voz baixa do Angenor de Oliveira em seus registros, a complexidade de Leandro Roque e até mesmo a utopia romântica (e exagerada, mais que a do Cazuza) do Tião Maia, quem cria normalmente o faz no particular, no silêncio, e a quietude que organiza nossa bagunça é sempre intensa demais, baixa, complexa, romântica e exagerada. Mas quando acaba, as costas pesam menos.

Se isso pode libertar, não há melhor hábito pra se virar rotina senão o de colocar no papel os pensamentos que precisam ficar para a posteridade.

Escute a música Rotina:

Anúncios

Krawk leva a melhor na Grande Final do CPBMC

No dia 04 de novembro aconteceu a final do Circuito Paulista de Batalhas de MC’s, foram mais 100 batalhas pelo estado para definir quem vai representar São Paulo no nacional nos dias 25 e 26 em Belo Horizonte.

O evento aconteceu em frente ao belíssimo Teatro Sérgio Cardoso e teve apresentação do Mamuti, com corpo de jurados de respeito: Marcello GuGu e Arnaldo Tifu; entre as eliminatórias das batalhas, tivemos pocket shows de qualidade do TR, Vinicin, Gabi Nyarai e do Cronica Mendes. Isso sem contar com os improvisos e boas mensagens passadas para deixar o público agitado.

Os MC’s classificados mostraram bem o porque de terem chegado até ali, maioria das batalhas tiveram um nível de qualidade muito elevado, deixando o público empolgado e querendo mais, muitos do confrontos foram tão acirrados que foi necessário terceiro round.

Dentre os 16 MC’s o grande campeão foi Krawk, que vai representar o estado paulista na competição nacional em Minas Gerais, vencendo Gabriel Barbieri, veja abaixo a chave da competição:

23231302_508719382820768_4754169065321184280_n

Confira as fotos do evento aqui.

 

OGI fincando o “Pé no Chão” do ano lírico

Não sei se 2017 é o ano lírico de fato, 2018 pode ser melhor, nunca se sabe não é mesmo? Mas o fato é que, Rodrigo OGI não poderia ficar de fora do ano que ganhou tal apelido.

Digo isso porque o cronista já tem lançado trampos de qualidade lírica invejável a um tempo, e a cada novo disco é perceptível a evolução do artista. Um MC que mantém seu estilo (a gente falou um pouco sobre isso nesse post aqui), no decorrer dos anos sem cair na mesmice e ficar clichê.

O disco já me impactou logo de cara, pois já dá um prelúdio de como vai ser o EP, começa com a voz do escritor João Antônio fazendo um paralelo entre o da escrita com o seu bem estar, é basicamente o OGI dizendo para o ouvinte que para se manter com o Pé no Chão, ele precisa fazer aquilo que sabe fazer de melhor, que é escrever.

É preciso realmente acreditar em escrever
Eu acredito que vale a pena escrever
Como vale a pena viver
No meu caso específico
Como a arte de escrever não é apenas um ato intelectivo ou intelectual
Chame vocês como quiserem
É um ato de vida, é um ato visceral
Eu não sei como é que eu viveria sem escrever
Alias, só vale viver escrevendo
Se eu não estiver escrevendo, a minha vida vai muito mal

Pé no Chão é um disco que mostra um certo amadurecimento pessoal do artista, pois ele narra suas mudanças de hábitos necessárias por conta das novas fases que vêm acontecendo, tanto na vida pessoal quanto na carreira.

O artista sempre manda muito bem na narrativa, com jogos de palavras bem colocados entre situações cantadas que podem ser vistas ao serem ouvidas, e sempre usando muito bem as referências, seja do mundo musical, dá nona arte, filmes… Enfim, vovô OGI sabe fazer um bom Rap mantendo seu estilo.

O disco foi produzido pelo Nave, mesmo produtor do aclamado “Rá!”, e conta com as participações de Bruno Dupre, Kiko Dinucci, Laudz, Marcela Maita, Emicida, Coruja BC1 e Diomedes Chinaski.

O EP “Pé no Chão”, na minha humilde opinião já tem lugar cativo na lista de grandes discos do tal “ano lírico”, pela qualidade do artista, dá produção, das participações e porque é um disco de alguém que não precisa ficar gritando pra ser notado na cena (tem quem precise disso), ele é visto porque é bom.

Ouça abaixo o EP “Pé No Chão”:

Dropê Comando Selva lança o disco “Entre Nós – Lado B” pelo selo Miragem Records

Já faz uns dias que o Dropê lançou seu bom trabalho nas plataformas digitais, sequência do disco “Entre Nós – Lado A” que foi lançado em 2015. O disco está desde o dia 13 de Outubro nas plataformas de streaming e teve o lançamento oficial no dia 16 de Outubro no canal do YouTube do artista.

Como já dito no parágrafo de cima, “Entre Nós – Lado B” é uma sequência do disco lançado em 2015. Os dois lados dialogam com duas facetas diferentes do artista, mesclando batidas eletrônicas com a gravação de instrumentos acústicos, como baixo, violino, guitarra, teclados e percussão. Dropê cita repentista, emboladores, partideiros, a Tropicália e a própria MPB, entre outros movimentos artísticos nacionais como a raiz do seu trabalho, resgatando conceitos com o movimento intitulado como a ReTropicália criando o Novo Ritmo e Poesia Brasileiros que agrega uma nova forma de se pensar dentro do contexto atual o RAP.

O estilo reconhecido por artistas como Tom Zé, que foi sampleado por Dropê e aprovou o resultado, Sérgio Sampaio, que foi homenageado no disco com a releitura do som “Eu Quero Botar Meu Bloco na Rua” com aprovação de seu filho. Di Melo que teve sua música Conformópolis sampleada em uma releitura de mesmo nome (faixa do disco Entre Nós Lado B com videoclipe lançado no youtube) e aprovado pelo mestre que recebeu a homenagem com muito carinho, dando o parecer positivo para a faixa e o clipe.

A divulgação do projeto começou com os singles: “Multiversos” lançado com exclusividade pela rádio Transamérica, e virou trilha da marca Tekstiiliköök sendo transmitido na Alemanha e Estônia. O segundo single “Bloco na Rua”, lançado com um trabalho fotográfico original junto com o grupo de Bate Bola-União de Realengo, faz uma alusão à cultura dos “Blocos de Rua”, e a ocupação da rua com arte, cultura e informação. Este single foi contemplado no blog Amplificador do site Globo.com como um dos 20 lançamentos do momento ao lado de artistas como Emicida, Zeca Pagodinho, Vanessa da Mata entre outros da cena musical nacional. O Som Selva-Gens que teve uma versão autorizada liberada para virar trilha sonora do documentário ‘’O Rap pelo Rap’’ do paulistano Pedro Fávero em 2016. A primeira faixa do álbum, “Você Tem Razão” tem sample retirado da música de Gilberto Gil com o qual estamos tentando contato em busca de autorização para lançamento nas plataformas de streaming.

O Dropê é conhecido por seus projetos socioculturais que fomentam a cena da cultura urbana e por suas viagens de pesquisa e interação de norte a sul no Brasil junto ao coletivo Comando Selva. Projetos como Reciclando Pensamentos, TV Improviso, Expedições, Oficina de Ritmo e Poesia, Mutirão de Grafite, Invasão Cultural e CCRP (Circuito Carioca de ritmo e Poesia) são algumas das “armas” desse agitador cultural para movimentar e transcender a cena atual.

Você pode fazer download do disco clicando aqui.

HQ’s cantadas de Rodrigo OGI

Uma das coisas que mais me chama atenção nas obras que mais gosto da nona arte, é a forma como as histórias e os personagens, que muitas vezes podem soar não muito convencionais em outros meios, como cinema, livros, séries… Conseguem ter uma narrativa tão rica e cheia de possibilidades.

Muitas ótimas HQ’s tem personagens que parecem ser um tanto fora de contexto dentro do universo em que se passa a história, mas que casam com maestria com o decorrer da mesma. Exemplos disso são:

Ezekiel1
Ezekiel em The Walking Dead, o líder de um lugar chamado “O Reino”, com um tigre como animal de estimação. Na mesma história vemos um homem que é chamado de Jesus e luta kung fu.
cassidy-glenn-fabry-preacher-e1440986644316
Cassidy de Preacher, um personagem que parece ser um homem comum em um universo comum se revela sem qualquer aviso prévio ser um vampiro. Na mesma história temos um adolescente com a cara deformada, que é chamado de “Cara de Cú”.
1364488-sangrecco8
Sangrecco da brasileira Mesmo Delivery, um homem que trabalha em uma “empresa de transportes” para o diabo e faz cover do Elvis, não aparenta, mas é melhor na faca do que o Peter Coyote brasileiro.

Obviamente existem muitos outros personagens com essa características em muitas outras HQ’s, mas a questão aqui é que existe um rapper tupiniquim que consegue fazer esse tipo de coisa de forma magistral em suas músicas, o cronista da cidade cinza Rodrigo OGI.

ESTAMOSVIVOSEP3-OGI-720-02
OGI procurando umas HQ’s no sebo, no programa Estamos Vivos com KL Jay, clique aqui para assistir o programa, mas termina de ler o texto antes.

O vovô OGI já disse mais uma vez em entrevistas que é um grande fã da nona arte, consequentemente a sua obra seria influenciada por isso, abaixo listo algumas (não todas) músicas dele com esse perfil que constroem sua “Gotham Sampa”, com personagens ou situações caricatas.

1 – Zé Medalha

Zé Medalha é um ótimo nome para uma história roteirizada por Garth Ennis, Mark Millar ou Brian Azarello, seja próprio ou mesmo um apelido para um chefe de gangue.

Na música ouvimos a narração de uma luta entre Rodrigo OGI e Zé Medalha, de uma forma onde o cronista cita os objetos usados na treta, e as referências para mostrar como ocorreu a luta.

Me faz lembrar de uma briga na história “Y – The Last Man”, onde a vilã Toyota narra cada movimento feito por ela e de sua oponente na briga, sempre falando dos movimentos, armas e brincando com referências japonesas para dizer que é melhor no mano a mano contra uma americana.

tumblr_m0r06wmrgS1r98mc7o1_1280
Y – The Last Man | Volume 8 – Dragões de Kimono

2 – Minha Sorte Mudou  | 3 – Ponto Final

Em Minha Sorte Mudou e Ponto Final fiquei lembrando das HQs do Will Eisner, que mostrava de forma muito bem detalhada como era a vida dos lugares que se passavam suas histórias. Você pode observar um bairro comum de periferia ouvindo essa música, da mesma forma que pode ver de forma palpável como era a vida nas periferias de Nova York lendo “Um Contrato com Deus”.

4 – Escalada

Em Escalada, o que me chamou a atenção foi como OGI mostra a imagem com palavras de como é o personagem central da música:

José Carlos magricelo, tinha um terno amarelo
Dirigia uma Belina cor de caramelo carabina
Seu aspecto era de um hemofílico, crônico

Um cara um tanto quanto “fora dos padrões”, a não ser que seja comum o corretor imobiliário ter esse perfil.

A forma que o abismo é narrada na música me faz lembrar a HQ da Vertigo, A Casa do Fim do Mundo, onde ao olhar para baixo, o personagem pode ser surpreendido a qualquer momento por um monstro criado por ele mesmo.

5 – Trilogia Trindade

Em Trindade (que é dividida em três partes), Rodrigo OGI mais parece um personagem central de algum conto de Sin City, de rolê na cidade fria e falando dos perigos da noite na metrópole.

Ele consegue deixar nas três partes juntas bem palpável a ideia de como a cidade consegue ser densa, fria, colorida, alegre e doida ao mesmo tempo, bem como nas páginas da HQ de Frank Miller.

Destaque para a comparação do barman e do policial Delfin. Na parte três, é genial a forma como ele descreve o devaneio do personagem chegando em casa e se “conectando ao mundo das crianças”, (bem como Dwight McCarty fazendo analogia ao monstro em A Dama Fatal), e logo em seguida indo “lutar” ao estilo Street Fighter para pegar uma mina.

Conexão

Texto inspirado na música Conexão, do do grupo Mob79.

Sete da manhã eu acordo com a garganta seca por conta da quantidade alta de cevada ingerida na noite que antecedeu essa manhã, levanto da cama e nela eu vejo meu sol, ela acorda e me olha, eu fico pasmo com o olhar de cigana oblíqua, e não sei o motivo, mas me faz ficar lembrando do som do Don L com o refrão da Flora.

Tomo uma água, lavo o meu rosto e volto para o colchão e ela pergunta se está tudo bem, faço graça para ela dar aquele sorriso que eu sempre elogio só pra deixar ela sem graça, faz aquela cara de quem não leva em consideração o que eu falo, me chama de exagerado por conta de tudo que eu falo dela, essa chatice dela é o que mais encanta.

Lembro da vez que eu fiz força para não falar o que eu sentia por ela, mas a cabeça dela no meu ombro, o carinho que eu recebia nas costas com as pontas das unhas me lesou de forma que soltei aquela bendita boa frase da garganta. Juntando isso ao fato de eu sentir falta de sentir a perna dela sem as calças, as costas sem a blusa e o cabelo com cheiro de chiclete.

Essas sensações me fazem ficar firme quando ela chora sentindo o peso do cotidiano que bate com força, protejo ela de todo o perigo enquanto projeto o nosso futuro, é nítido, vejo isso de uma forma que na frente, decisões podem ser tomadas pelos gestos feitos hoje, não me dou ao luxo de fraquejar com ela insegura.

Depois de conhecer ela, ficou mais claro o quanto não só os olhares falam, o aperto no abraço em uma hora qualquer também diz muito, os beijos roubados depois de umas palavras simples ditas falam bastante sobre o que não precisa ser dito. Me deu segurança para levar ela nos lugares que gosto de frequentar, e esses locais só continuam tão bons quanto se ela gosta de ficar nos mesmos.

E ela sabe como faz, ela encanta, sabe a hora certa de brincar e de falar sério, é maturidade que não se tem em abundância por aí, sabe também o que fazer pra me fazer o que eu não posso fazer, convencimento com malícia depois de goles e fumaças.

E ela vem trazendo a paz que eu sempre pedi
Fazer eu me sentir, como eu nunca me senti
Eu sei que é especial e obrigado por tá aqui
Foi difícil se entregar, mas eu consegui

Escute a música Conexão.

Rapaz Comum

Texto inspirado na música Rapaz Comum do grupo Racionais Mc’s, em comemoração aos 20 anos do aclamado disco “Sobrevivendo no Inferno“.

Edivaldo morava em um dos extremos da cidade de São Paulo, tinha 22 anos, torcedor fanático do Santos, morava com sua namorada e a filha de 3 anos na casa da sogra, era estoquista de um hipermercado 24h.

Pegava trem todo dia antes de amanhecer para chegar no trabalho às 6h, gostava de ficar ouvindo música no caminho enquanto lia as notícias de futebol no celular. E naquela manhã ele estava ansioso demais: quinto dia útil e final de Copa do Brasil, o Santos ia jogar. Naquele mês de outubro ia cair um bônus das horas extras que ele fez em setembro, uns reais a mais no salário, esmola de patrão, cuzão milionário, mas aquilo não importava, Edivaldo achou melhor pensar que naquele dia poderia se dar ao luxo de tomar umas brejas vendo o alvinegro praiano. Enquanto escutava Me Faça Forte, leu que seu time não tinha nenhum desfalque para a decisão.

Chegou cedo no trabalho como sempre e fez tudo que lhe foi pedido sem reclamar, lembrou que tinha que levar leite e umas balas que prometeu para a filha, fez um vale. Comeu dois mistos quente e tomou café com leite na padaria do lado do trabalho na hora do seu intervalo, leu mais umas duas ou três notícias de futebol, deu risada de memes, mandou mensagem para a namorada avisando que ia levar o dinheiro de duas contas que tinham que ser pagas.

Aquele dia ele saiu do trabalho com muita pressa para aproveitar a tarde: puxar um ronco, ficar descansado, mas antes comprar umas quatro latinhas de cerveja para tomar vendo seu time jogar. Um farol antes de chegar na estação, Edivaldo saiu correndo para conseguir passar no sinal verde e foi parado por dois policiais na calçada seguinte, nisso ele perdeu mais ou menos seis minutos e dois trens. Foi liberado ouvindo que foi confundido com um suspeito de furto em um hipermercado próximo, não recebeu­­­ um pedido de desculpas no término do enquadro. Quando passa na catraca da estação, o segurança da CPTM comenta:

– Que merda hein…

– Os cara é racista, né? Fazer o quê?

– Racismo não existe, comigo não tem disso. É pra sua segurança.

– (silêncio)

Já no trem voltando para casa, Edivaldo presta atenção na molecada vendendo balas Fini, percebe que dentro do vagão tem um amigo de infância, o Telhada, que era mais velho e com quem perdeu contado depois que ele foi estudar na Barro Branco. Esse cara estava bem tenso, sentado de braços cruzados e olhando fixamente para as crianças que vendiam as guloseimas. Um dos meninos foi entregar o troco de uma venda a uma senhora, e de repente Telhada levanta gritando e já segurando o menino que nem um metro e meio tinha pela gola da camiseta suja e gasta.

 

Todo mundo abismado logo de cara dentro do vagão pediu para que o metido a Charles Bronson soltasse o moleque, Edivaldo levantou e peitou Telhada, pediu por favor, mas com raiva para que o (ex)amigo soltasse a criança. O guardinha usou argumento de vidente, afirmou que o ambulante ia roubar o celular da senhora, mas viu que as pessoas em volta não te davam razão, decidiu soltar o menor, mas deixou claro, que o ditado dos cem anos de perdão não funciona para ladrão que defende ladrão, mesmo sem ter nenhum em vista naquele momento, mas aquilo fez Edivaldo lembrar do seu passado.

 

Quando era menor de idade, o protagonista dessa história queria ter respeito entre seus colegas que não se respeitavam, gostava de aparentar que sabia tudo sobre bandidagem, que podia fazer e acontecer como um inimigo público tupiniquim, de tanto querer ser, acabou parecendo e esses colegas resolveram chamá-lo para um assalto de computadores novos da escola que estudava. Ele sequer podia sair de casa depois das 22h, mas aceitou o convite e disse para sua mãe que ia fazer trabalho na casa de um amigo, sem noção de consequência alguma, Edivaldo foi ficar de vigia na porta do colégio enquanto os ladrões reais faziam seu trabalho.

 

A única coisa que ele devia fazer era jogar uma pedra na janela da sala onde tinha as máquinas caso visse de longe uma viatura. Mas foi pego de surpresa, em um domingo, 0h45 na rua deserta em frente a sua escola, a polícia o enquadrou, perguntou o que ele estava fazendo aquele horário parado naquele lugar, gaguejando e tremendo em uma noite quente, ele disse que só estava ali parado mesmo.

 

Os policiais resolveram dar uma olhada dentro do colégio, pegaram todos que estavam lá dentro em flagrante e levaram para a delegacia. Edivaldo era o único de menor de idade, foi mandado para Fundação Casa, passou nove meses por lá, tendo como recompensa a decepção da sua mãe, o afastamento dos amigos de verdade, e a dúvida cruel se aqueles que foram presos estavam com raiva dele ou não.

Com a gaveta do passado fechada, Edivaldo chega em casa já entregando o dinheiro para a esposa, que te recebe com um sorriso, não tão grande como o de Manuela, sua filha que só queria saber das balas prometidas. Ele almoça e depois vai para o mercado comprar suas latas de Itaipava, no caminho encontra um amigo – também santista – que lhe convida para assistir o jogo na sua casa, onde ia ter cervejas e quitutes, o convite é aceito e ele em vez de subir de volta com cerveja pra casa, subiu com Yakult para a filha, nisso a sua esposa já te via como herói, e ele nem tava sabendo.

A soneca prometida pra si mesmo mais cedo foi tirada, já era noite e faltava apenas meia hora para começar o jogo tão esperado, aquela altura ele tinha certeza de que ia soltar o grito de campeão, o dia tinha sido estranho, mas tudo deu certo, até porque sua família estava bem, só faltava bola no fundo da rede a favor do seu time.

Edivaldo chega na casa do amigo 10 minutos antes de começar a partida, conversa e risada, cerveja e carne assada, tava sendo um bom fechamento para o dia. O jogo começa e o frio na barriga vem junto.

A campainha toca, ele próprio decide ir atender, sente um calafrio mas não dá atenção, quando ele abre e porta só vê um homem encapuzado na sua frente, que saca um treizoitão e lhe acerta tiros que ele nem raciocina ao ponto de conseguir contar. Ele cai no chão tentando entender o que aconteceu, tenta lembrar quem poderia fazer aquilo, será que tava sendo cobrado pelo roubo mal sucedido de anos atrás? Será que foi o guardinha que encontrou mais cedo no trem e te chamou de ladrão? Será que foi baleado por engano… No lugar onde morava aquilo era comum, podia ser qualquer coisa.

Nada importava, Edivaldo deu espaço para outros pensamentos, será que o Santos ia ser campeão? Será que a sua filha ia sentir falta dele? Ela ficou tão feliz quando ganhou as balas que tanto gostava… 

Escute a música Rapaz Comum.

Continue Lendo “Rapaz Comum”